ESCARRO, novela

Posted in Sem categoria on 20 20UTC junho 20UTC 2016 by enriqueandres

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 ESCARRO

novela em duas partes

escrita por ENRIQUE ANDRES DE OLIVEIRA AUE

 

Com apoio do edital do Programa de Ação Cultural (ProAC) nº 31/2015 “Concurso para bolsa de Incentivo à Criação Literária no Estado de São Paulo – Prosa”

 

NOTA DO AUTOR: A presente novela é composta de duas partes mais ou menos independentes uma da outra. Uma não compõe a continuação da fábula iniciada na outra: ambas são a repetição da mesma fábula, com algumas informações diferentes em relação às circunstâncias. Essas diferenças modificam não só o tom da fábula, mas, principalmente, a linguagem de sua narrativa. Na primeira parte, o foco está na construção poética das palavras; na segunda, no desenvolvimento da narrativa.

 

PRIMEIRA PARTE

 

1.

Pede licença!
Entendeu que num é meu lugar. Narrazão de vocês não era pra mim e me expulsaram! Mais ainda preciso deixar minha denúncia. Tô tentando. Que num denuncio nada desde nunca. Tá errado mas né papel de esmola, não! Nem tem o como dizer “Um dinheirinho, que no trabalho lesaram-me nha saúde! tô pedindo porque não tem denização!” Num quero um trocado. Que nem tem grana que possa pagar o que me fiz zeram. Tá sim porque num sei escrever direitos. Só tenho necessidade…
E essa qui vai ser a-história. Que eu só gosto com istória; sem, fica assim, num dá, num dá pra outra pessoa entender. Quando falo, num sei expressar. Mas cê entende quando trabalho, me entrevista dê emprego, pergunta que dei problema do que eu fiz de errado, aí todos dão pra mim tender. Mas nunca pergunta Zé Edmário como cê tá como tem vivido e não sei quê? Não, nenhuma vez cêquer.
Então ceu ficar só falando falando falando: o quê? quem vai emprestar atenção? Que tem gente que é pra ouvir, que é pra ficar falando e todo mundo ouve gostando. Agora, eu? Não.
Aposto que vão me ler e de char-me de canto, olhar com nariz torcido. Com nojo. Mordendo cos olhos, igual já fizeram com-eu.
Por isso, tens tória. Cês olham porque aconteceu, não pra mim. Que, proque é assim? Né obra deu! Erra pra ser diferente. Como, sina hora que um vai lá não pode? Pergunta Como escreve? e quem responde diz que não é pra você.
Vou contar logo, tome perdendo no papel, no que num sei, que nem é pra mim tais crevendo.
Já viu cabeça oca em biblioteca? Sós se for peso de papel!
(Eu devia mesmo pesar na sua um estante que seja.)

 

2.

 

Cê nem sabe. Me mandaram embora, tô sem emprego. E nem foi pur-o que eu bebi. Um problema era outro. Vai vendo.
Trabalhava em escola. Só trabalhava. Eu era tio, inspetor. Quebragalho, tapaburaco. Sabe mesa descrever? carteira diz tudo?, pra mim, era só peso. Ficara rumando todas. Trabalho broçal.
Há voz do professor ainda na minha memória:
– Já falei: pra saída minha aula!
Demitir o cara é simples! Difícil é ser o desempregado. É que entrei na aula deli ter atura do pergonagem que acordou mal e num conseguia sair pro trampo. Tenha ver comigo, por que eu não possua sistir?
Literatura nunca quis crevi, quase que nem li. Mas li tudo que pude. Achava livros, deves em quando. Aluna e aluno sempre perde. Não gostam tanto. Eu gosto. Acha doze Perdidos foi minha livraria. Melhora té que livro novo: página limpa branca que num podia brir num podem rolar porém mesa molhada. Pode nem usar praa notar qualquer coisa! Nem ler muito que parece que gasta. Presta pr’esta mão? não. Já os queu achava! Não tinha problema eu mexer. Já vinha rabiscado de desenho de rola palavrão xingo pro fssora. Apaguei o tanto que dava. Por quis crever sobre aMartha? De lá só ela que num quero ofender.
Eu pegava nos Achado Zíperdidos, roubava emprestado, pra devolver depois dever! Tava esquecido, e eu devolvi sempre. Só um que não: São Bernardo. Graciliano Ramos. Professora que di sem aula. Copiei da lousa que minha função era só apagar. Letra linda. Só esse livro que não devolvi que nem deu tempo! Me mandaram embora eu ainda tava lendo.

 

3.

 

Findo período da tarde. A escola que é tinha, só eu que não: até prece que o prédio rosna, é quando arrasto todas carteiras.
Aula da profssora é em roda. Bonito, usa lunos tudo participando, falando. Soquem fica depois pra rumar carteiras, zé eu.
O travei stou de escorrendo sobre as sempre mesmas coisas. Sempre voutar garelando ainda mais depois que bebi tres seis dozes… Precisava um soco que me québria cabeça igual garrafa deixando estavazar! Quem sabe me livro dessas raivas e num me repito mais.
Ézé! Sina guenta, num toma! Ou só uma, ou suma!
É que sinto aqui, eles tudo daquele colégio entalado aqui, entupindo minha garganta, sentados pesando no meu peito nem respiro direito. Enfio fundo na goela a garrafa, sufoco nos goles, no goró, pra que delí cia foguem. E nunca que falei nada preles! Professortudo trankilinhos! Num desafiei nem desconfiou queu desfiaria ele na faca! Me danava todo mas danava também sobrava nada. Assim feliz de poder esquecer.
Mas não falei nada na hora, nem vou falar agora, cá língua anestesiada de tantas sim-cuenta-ium.
Aquele cara. O prsor. Me vendo ia me cumprimentar, me terá mão na minha, simpático. Eu ia fazer igual! Covarde de ser ruim, gorosseiro, sincero. Medo dele me olhar como se eu tivesse inventando as coisas. Exagerando.

 

4.

 

Pra pagar a lousa da professora. A matéria:
“As várias ção lingüística”…
“Ais! Incheção d’linguíçtica!”
Não consigo esquecer. Tento mas tô assim que nem consigo. Até hojeito dela contínua pra mim. Jeito como ela dá sorrisinho dium lado, e dizcoutro lado, dica nto de boca.
Ela dava sinal! Eu tinha certeza que era isso! Ela té falava comigo!
Num infini tive amartha. Presentar ela pra mim ninguém fez. Foi ela mesma, quis e deu pra mim olhar. Miolhou no olho. Até beijo mandou uma vez, tiauzinho de beijo na mão. Ela té deu-m, olhe: deu-me abraço. Achei que ela queria!
Pô fssora! Não me ensina nada, some diz como és quecê-la.

Porra. Enfrescalhei esse escrito agora todinho foi só pensar na pfssora. Né por causa de uma que vou arregar pra tudos outros. Já tô pedindo que me dês culpa?!
Num podia mole ser, ZédMário, que num tens tórinha de amor. E nem sei se ela né igual a eles. Última vez que confiei, cadêu? enxutado pra fora. Não quero ofenderela. Mas, só dela-tar com eles, é cúmplice. Tudigual. Eu tinha é que tocar o pavor na geral. Aí que nunca mais iam me tirar.

 

5.

 

Onde que eu tava? No livro perdido!
Como eu gosto! Mai Zeu? Minha cara é toda oleosa sempre, unha suja dentro, sovaco marcado suor no único niforme. Claro que me lavo mas não fico parado! Carrego coisa o dia todo! aí não tem como; só fic’aregando livro é mais fácil… O prefssor, quando passa tem um perfume, perfume de cheiro de nada, de limpo! Parece cheiro de papel novo. Dá vontade ser! Mão limpinha que escorre gago stoso nas folhas, fala de vagar, sem esbaforir, cara seca, óculos, postura fina ereta. Fala “Sei que o estilo de uma Chado Diassis pode ser difícil pra vocês…”, fala respirado na frente da sala cheia de aula. Trankilo.
Vai lá Zé Edmário falar: sem te me do.
Vou nada, cá gado de medo me escondendo pra fora da vista deles tudo. Olho-o tanto-o. Ele não tinha me percebido nada distoantes. Eu que quero letrar, falar. Eu mesmo nunca quis tudei tanto como ele. Até o terceiro ano da funda mental. Formatura nunca tive, foi uma dura cacetada do meu pai Vai trabai arque nós precisa. Livro (se eu tinha livro) virou calço pro fogão, que minha mãe cozinhava pra vender. Só nesse emprego que entrava todo dia em sala de aula. Mas não era pra assistir da lousa cheia, era pra apagar entre uma aula e outra. Leiscrêvê? Seisquévê minha caleigrafia é num reboco lisinho. Tolhe gado.
A chutão difícil! Raiva disso de ficar de cara em livro dá vontade balançar a perna, coloco a mão fico mexendo no pau, olhando pros lados, difícil de ficar nas palavrinhas. Desenho salva: trechos amenos! Mas eu gosto, gosto de ler, de toda essa coisa pensar em que nós. como pensas pessoa. Eu enrosco em palavras, vejo diferente, vejo outras coisas: lembro cansaço do trabalho, conta, faxina, salário, se a palavra lembra penso nas minhas coisas devida. Atravessar livro inteiro? Mais fácil com pá, furadeira, serrinha, mais fácil furar tijolo parede fazer porta não atravesso sempre os sentidos. Fico nervoso sonho dar escarro no meio do livro. Guardar depois, certinho, na ordem na alfabética. Deixar. Pra ver diferente quem for ler depois, ver através do amarelo escuro doente do outro que eu sofro na frente deles daquilo disso.
Deus me livrou diss tudo.

 

6.

 

Conta de telefone. Porra, nem to usando. Não pode cortar. Tem que me ligará o guém fiz tanta entrevista! Na dianta nada. Nunca toca. E não tá quebrado. Não toca nem quebra mas cobra. Conta cara, zolhos da cara. Já é quase dia-a-dia luguel.
Tem o dinheiro do último trampo até quando quanto tempo? Só ficar parado, sem comer sem respirar, morrer entocado quietinho, já custa. E tudo vem cobrar, é conta, é boleto…
Ai se não pagar! Falar Num vou! Num ganho também num gasto! Vai! Junta aí mobiliária mais banco. Se vem me cobrar Irrresponsável! Saída qui! Xô! Tá bêbado? Quer mamar na nossa teta na na nossa teta nãná neném? Nem pensar! Xispa! Aguardeça pornão i preso, seu véio mamado!
Ó, já tô aqui pirando. Delirando violências. Esperando motivo. Monte de soco acumulado pra dar mordida e tudo. Não reagi nada do que me fiz zero. Agora tô preparado. Pó devir!

 

7.

 

Eu andava té arrumadinho!
– Ói ZédMário! Cortou cabelo! Cortou azunha! Mudou visu uau! Virou gente. Senão, pare!sendo bicho!
Eu tava tinha tempo tentando. Me adequar. Quando comecei trabalho lá não conseguia. Tinha sempre a vez em quando eu ia virado. Cá indo cá cara de cá chaceiro. Ó: um dia quando saí pra comer. Saí tarde, tive que arrumar uma sala todinha que fez aula de dança: carteiras empurradas todas pro fundo da sala. A sobra era sempre pra eu. Rrumei. Quando era assim, na hora queu tinha pra almoçar, comida num tava quente já mais.
Passeia proveitei pra olhar uns doces bonitos mais caros, olhei uma vez pa dentro. Na outra vez, duas atêmdentes riam, tavam coxixiando, numa posa assim pra misspiar.
Tendeu? Nume sei explicar. Acharam eu susperto demais.

Né dioje queu tenho ódio odia todo. Já de novo quero voltar, “Toa qui! Por vim gança. Cês vão as repender!”
Antes de me tirem, lembro cum professome falou das minha titudes:
– Não, não é bom: acalma, num treta, se aquieta.
Não foi igualzinho assim o que falou, começas palavras. Era preu num tretar com a patroa. Tinha muita raiva! Quela falava “Pensa direitinho se tá mesmo afim, de Dmário. Se quiser trabalh arde reitinho, tudo bem; se num quiser, a gente dispensa e tudo bem tão bem”. Eu num sube responder. Querié quebrar coisa. Sequestrarela!
– Quisso, Omem! Se for aprontar é pra tar sendo preso! Melhor é tar livre. Num vai por aí. Se for dar vai foder sua vida dis graça! – e quis mudar o dia sunto – E essas poucas frases rascunhadas que cê escreveu? É bonito. Atérrado ficou bom: parece Games Joice! – nem sei o que quis dizer, criou um jeito de poder gostar.
Eeu? Vou ficar reclamando poesia? Dá pra sesquecer e sóis crever?
– O que escreveu é bom. Só não precisa xingar.
É que eu xinguei. Foi um dia que lime viu tacando as carteiras irado. Tirano tudo. Todos palavrão falei e alto. Ele me flagrou, quase caguei de vergonha! Mostrei pra ele o texto que escrevi, que era o que eu queria dizer pra quela zinha. Texto que xingava pra porra, escaralhava a fuça de patroa lazarenta. Mas aí ele leu e ficou falando o que eu já disse que ele falou. Fui parando um dia rumar treta. Mudei, foi hojeito. Dali pra nunca mais.
Mas não dá pra esquecer. As pessoas de dinheiro me olham mal. Deixo quieto. Não uísqueço, nu mim porta quanto beba. Nadaa paga.
Hoje sou pobre bom, faço que mandam! Vou e volto, desço e subo, só bedeço.
Prrsor senhor gulharia dever: num fiz nada num fui preso. Soque ele! num fica pra ver que num sou livre.

 

8.

 

Todas professoras e professor e coordenadora e diretor tudo comem morando. Tinha cerveja eu podia tomar. Tomar numa boa: era pra beber mas não tava ninguém xapando. Só pode gustar. Ai, mais! tavam dando de graça tava tomando mesmo! Enxuguei. Rápido porque parece que nem podia que tomei que roubando. O cérebro já boiando na caixa. É que atiça, a goela esquenta fica larga e sem fundo. Nem sei quanta latinha juntei. Cendi o cigarro.
– Isso não, ZéDmário…
Paguei.
– Vai divagar seu Zé… Olha com postura!…
Tô sempre com nervosismo tremendo. E ssa tosse! Respiração grudada: escarrando parece cola dessa pateiro só que verde. Aindà toa sim! Naquela hora o escarro tava preso tapando minha garganta.
Todo mundo é do cado, falando é do cada mente, com cada palavra fresca. Deve agens que fiz zero. Eu de canto. Só falei com a Durva, quera da limpeza. Ela não podia tomar, só trabalhar.
Aí comessarro a falar de pôr-lítica. Nem tendo desse assunto, só achei importante, também não tava feliz com todas coisas.
– É verdade, Brasil precisa mudar!, desculpa, eu falei, Tem gente quem teressa proteger mas tenho trás que não?, Tem gente quer preguiçosa e rouba tem nem vergonha, Eu não devo nada, diz culpa., Num pude estudar, num sou igual vocês, Só trabalho braçal que a cabeça não presta, minhas mãos servem., Tem que ter vontade de mudar, Não adianta nada, Senão é vagabundo às custas dos outros!, Não roubo não pego em arma num paro de trampar – só agora que tô parado, quando falei isso tudo inda tava trabalhando, só agora que parei não por querer que fui demitido! na rua faz meses que não há ranjo nada só conta pro pagar –, Não domo tivos pra ninguém me pega réu, Polícia tem nem motivo só catar eu na vielinha trás de casa, some com eu nuncam borão ou me apaga li mesmo ninguém sem terá falta, igual pisar pra apagar fogueira massam minha cara com bota pisada pesada nem sobra resto nem rosto de mim degente…, Sou bediente, trampo aqui pra vocês, pras crianças aprenderem elas são  futuro decepaís!, Profsora falou quem Cynar é bem-são, e educação salva
Cabei de falar porque vi. Tavam me olhando que nem se eu tivesse pelado. Tinham cara de nojo, tinham cara de medo, tinham cara de raiva, só não tinha cara de quem tinha entendido, ninguém entendeu porra nenhuma. Esses’carro na voz, a fala fica toda melada tremida!
Ainda tenho o escarro no meus peitos, tossem saúde nenhuma. Tusso e parece que troveja dentro do peito. Escarro grosso mexendo aqui, grudado, agarrado na tristeza e na raiva. Duro dissa ir! Quando sai é nojento pra vocês, mas é o jeito. Senão é nojento só pra mim só eu que fico engolindo de volta todas nojeiras que me deixaram entalada na garganta doecendo meu peito doendo minha voz.
Ninguém me respondeu nada. Cia. fastaram continuaram conversando entre eles mesmos. Só notei que num tinha mais breja: mandaram a Durva recolher. Secaro claro calaro minha fonte.
Continuaram meeditando. De batendo como rumar o mundo.

 

9.

 

Trechos que escrevi no boteco do Faria foram os primeiros que foram lidos. Isso que foi meu lançamento. Eu com os rascunhos tudo abertos largados na mesa. Uns homens olhando lendo. Nunca vi se eles tão ali zantes.
As minhas folhas nas mãos deles. Eu cá cara na mesa. Respirando pra não vomitar.
Eles tentavam ter interesse, ma espairece que não tavam gostando… Gostam de falar de outros escritores, não deu.
– Parece, eu li!, aquele… aquele livro daquele escritor… Dotor… Dousto. Doustoiévisqui! “Adoce-o” dele do Dot… Eu li! Li! Li, sim! Ele eu li lá! Doust. Li! Eu tô falando que li! – mas quem tava duvidando? nin guentava! Nunca lou a boca.
Nem percebi que leram bebendo na minha conta. Cordei na rua, bar fechado. É que assim: se o bêbado num paga, se ele apaga, eles pega: dono do bar faz as contas, te sub-trai e de troco te taca, timpõe pra dormir na calçada. Assim que é.
Foi assim que me lançaram como escritor. Deu pra saber que tipo dautor eu sou. Quem é meu público e o que devo esperar desse público.

 

10.

 

Perfessora. Saímo junto. Ela mem controu na hora que podia. Almoça rapidinho qué-tinha outra aula pra dar. Eu fiquei dolado.
Issortudo aconteceu aqui perto, nuncafé.
Não me dobrêm comesse lugar ali mpinho. Sou de botecom copo bafudo, cinzero na lata da breja, banhero vou-me tado, fudido, fedido. Né que goste cagado, molhado, mas num me olham mal olhado! Lá eu que soe rrado. Fico pequeno, nem tav apagando! poca grana pro pra ganda. Keriétê! com grana com pra tudo pra ela. Mas nu tenho mas nem… tende?
Tudo tão réquientado. Desejo causar, fazer sujeira, babar, pagarde loco. Indé pouco! Mas num faço nada. Fico convergonha. Que careu fiz? Quando imaginava, que cara? Acho que todo mundo mestranha, me tem nojo. Vou nu banhero, mexer cabelo, tira olhe-o sidade.
Não consigo má rrumar! Quirraiva! Purquimimporto?!
– Num vo mi tar com você aqui! – tô flano cá perfessora, queu num ia mi botacoela num boteco. – Cê é de restaurante. De só bota o batom em taça limpa. Carim babei jos, deixa o desenjo dos lábeis… Eu quietenho beiço pra gargalo ou copo malavado. Somos de ferentes. Cê é a própria ganda quitou proibido deter.

 

11.

 

E eu choro também. Choro muito. Já notou que num tou tão bem. Omi babão-do chorão-do tempo todo. Vida toda mal rezou vida. Com cachaça na caveira caminho muito comovido, birita afrouxa o xoro. Uma melação medonha. Bebi abro berreiro babano igual bebê.
Tem um cachorro me lambendo aqui na calçada. Sou estranho pra ele, sou maior e posso fazer mal pra ele igual os outros faz. Mas ele me lambe, me gosta. Esperto de saber que não faço mal? ou bobo de confiar num qualquer? Ele não me exclui. O medo das pessoas cos bichos é jeito de diminuir. Tem medo da barata pisa nela. Gora, o que ele faz é tratar co respeito, fazer que o respeito é o jeito natural de tratar. Tá certo! E deixo me lamber e me mociono mais! nunca me lambem! Eu bebo e choro, ele bebe meu choro.
Tudo mico move.
Ri, dículo!
Seque não entende. Deixa que os cachorros me leiam: vão tirar mais proveito.

 

12.

 

Lembrei demais coisas agora. Lem brando muito eu tô ressentimente.
Eis tória dinfância: Eu, filho dissen zelador. Pôr isso morava ni prédio. Eu com versava com otro menino. Ele filho dissíndico, rico. Ele me quis tionou:
– Cê tem Nintendo?
– Nintende o quê?
– Não: Nintendo.
– Que que cê nintende?
– Nin-tem-do!
É, eu pen sei, nuintende eu memo. Aí eu falhei:
– Indendi, já, mas num sei o que que cê nintende!
Só grande quem tendi que o que tava falano era diverteo game! Ele me oleo zoo ando.
Quidiota! Buxexudo propriotário! Só purque era dono duma droga daquela! Mas, pur que tô falano disso? Indadói? Agora já era, naépoca num fiz nada, agora nádianta! Num soquei, então sóconto!
Ele corriu de mim, tiros brinquedo dele da mão de-menuino pobre!… Fianocu! Chega desse troxa descistória! Qui num tem nada haver corresto (Eis crevo por queto sozinho. Mai screveno viro inda mais sozinho. Preciso mexplicar, que ninguém tende. Ma duvido que há o guém que vai lê minhes plicação! Toys creveno pa mim memo. Serve de nada. Igual bafo ni copo de bar; é que teve um homi melano os bigode, melalcólico. Ninguém quéim tende do choro dele, só do chero que é ruim. Ai, essi meu confissonário com hálito de pinga: vam vê se vinga) nada ver corresto, coa ssunto!
Ah, toe rrado memo e quis foda! Vambora conternuar.

 

13.

 

Poizé! Já teviu m dia, entro um cachorro vira-lata naiscola. Ai escolta! meni nada num gostou. Incomudava tudo. Fez nada, quertinho, mas tinha que tira. Peguei-no bichano com carinho. Cuidado Tiu! Te morde! Ué, todo mundo tamém morde, cê morde, eu mordo! falei pra mimnina (quéla num mescutou). A Inspetoda molhou dum jeito Tira Zé! Tirei, néra lugar dele… Tirei. Poizé!…

 

14.

 

– Tio, cê nem existe.
Perguntei pressa menina Que quer que tô ocupado!
– Você só usa o niforme, mora ali dentro da escola, nunca sai. E só existe quan doeu preciso. Nas férias você some. Nem come nem dorme.
Eu a perguntei que se nem nada eu era então demitido eu também nunca era:
– Não. Cê só vai embora depois volta. Co’outra cara outro tamanho: mas tá sempre aí, sempre é o Tio. Você é o que vem quando falo “tio!” e sempre vem alguém que é o que você é. Eu ne invejo sua cara. Vejo desenho em volta da cara toda igual dos tio que estiveram aqui antes. E falam todos do mesmo jeito e eu nunca entendo mesmo não.
– Ó meu caderno? Conheço leis crever. Você sabe ler? Sabe? Pra que? Precisa, pra carregar coisas? Vais crê ver o quê? É um diário isso que escreveu? Cho ver? Dá pra entender nada… Não mostra pra ninguém que vão rir da sua cara.
– Por que tá conversando comigo? Tem medo não? Olha, assim, assumo, se minha mãe ver vaia char que querem assaltar a filha dela.
– Você é que não fica pr além brança. Ninguém fica comemória de quando cê sumir.
– Ma Zé assim: cê nem pó dexistir!

 

15.

 

Tô falando mas tá faltando chegar no ponto: foi naula do professor com chero de papel queu entrei e fuis pulso.
Demorei pra falar iagora falei rápidemais. Prontotá contadooque aconteceu. Aindadá vontadioquê? Pur que tem o quescrever mais ainda?
Ainda num falei nada que vi, senti. Dá raiva que senti! Aprendi tanto (e óia quenem direito entrei nassala, que boa que era hein aaula!). Num-a prendi errado, aprendi, e rápi doeu! E du queeu aprendi, tô deixano aqui minha lesão-de-casa.
Benhiscritinhu vai fica. Lascoa caneta, puto, seis que secosseos xifre, quimi decifri. Meucolega da papelaria vai digita preu. Tô ligado quimivai perguntá:
– Vai comerro mermo?
Jámais de várias vez me disseram “aspa lavra são como ela zé!”. I as primeira?, senhum que num invento, quem fez como?
– Tô veno, viu?, que cê pois depois umais letras quias queu puis!
Mazeu com fio nele. Elié pareceiro meu. Xeroca livro e lê os dito dum poco.
Vai colano aspa lavra quele aprendeu. Cada parte helicopia igual ou elha ruma. Vou-le dando, ele vai-mu dando. Eim prime:
– Tô veno! Tapa receno outrava língua!

Tem que ele screver pra mim, né? Eu, use gual a eu, é pra morrer intalado cá voz inãodita.
Aspa lavra que me expressa são citação. A minha única sitação é de não ter aspa lavra queu preciso.
Tá certu. Cê tenhas palavra. Faexpôr eu!
Não hácerto porcoguês. Cês que me descumprem!
Pôr isso, vaime pergunta “Vai comerro mermo?” Eeu vô dizê:
– É dojeituquetá!
– Ma se ninguéin tende!
– E né assim queu missinto cos livro deles? Quiaquela gente sucinta nalfabeta, pelomenozumaveiz! E porisso quiscrevo bravo qué pra tamém sentirem u quié umedu de nuntá intendendo.

 

16.

 

Eu ti vi medo. Quano tavam todos norredor de mim. Queriam nenhé queu morresse, quiacabasse. Alguéme pisa, joga fore pronto.
Issé jeito, o jeito quimiolharu? Qque sô? Bixo? Eu nera mais gente naquela hora? Emquando eu tentava falar. té medo íaos cornos. emquando isso, umenino fazia riso, fazia karadê tonto, repitia u quieu dizia, braço pindurados, imitanto macaco, mexamano de macaco!
Pra minha quele menino passou dislimites! “Cabou-se o quero doce, pó descer daí?!”, nem sei quibarruio ouviram da minha boca, mai ninguém obedesceu.
Professô falava dum jeito queu num sabia porondentender. Quevozão quele me gritava. O Propressor. “Porrrrfavorrrrr. rrrosnava rrraivoso. Porrrrrfavorrrrr senhorrrr Edmarrrrio! Senhorrr tá forrrrra de contrrrrrole!”
“Irrrrrrrrrresponsável!”
A cor de nadora briaboca: Tá bêbado Zé?!
Quano me arrastavam levano pra fora, todescola paro prespiar. Professoramartha. Quisfa lá coela! Ela tomó susto tamém. Sala dela, criançaprende Bá-Bô-Bí-BêBum! U prédio sóme ac usava. Protégi a pssora! levei xute dos molequi di emsi no médio.
– Taco um medo, tiuzão? rárrárrá Thank tê mer mo! – eu só zinho, elis zeram monte.
Eu na calçada:
– Pinguço! Aguardeça pornão i preso! Seu véio mamado!
Um homi té tava passano na hora. O um homi falô:
– Óia! Táca cara nu chão, cacara fei! Arregaçada! – Tarra zuano. Eu num tarra zoável.

 

17.

 

Ali ás criança prendem ser educadas contudos funcionários. Mai zé sopra aprendizado delas mesmo. Né porque também mereço porque sou gente.
Um dia uns moleque-riam bola pra jogar. Perguntei pra coordenadora onde quietinha bola, ela respondeu através sado.
– Não sei, é você quem tem que saber onde tá.
Desse jeito, resmungou, nem ses forçou pra medir minuir. Cabe surdo! Eu sei lá onde que guardavam cada coisinha? Patroa cínica fazia de boazinha pras criança, sendo pedagógica, mas comigo? ela pisava em cima e nem olhava pra sola. Parecia polícia disfarçada de professorinha legal.
Fiquei do vidando do que tinha ouvido certo o que ela falou tenho certeza que falou! Fiquei na minha que so bem diente. Procurei e procurei aquela bola, moleques gritando na minha orelha. Depois do susto eu queria perguntar Que que cê me falou? e se ela repetisse a ofensa eu podia tretar. Taria o torizado. Mas, já tava trasado, senti vergonha, cabei não perguntando, não reagindo, não fazendo nada.
Deixei passar igual fosse nada. Talvez fosse nada.
Mas agora tô aqui, engasgado com orgulho envenenado.

 

18.

 

Fi compensando também, numtém pesona com ciência não? Mandaro eu é em borá e num falaro mais comigo. Quer não? saber comotô? Semper guntavam Tu, do bem, Zé? e agora num importa mais? Agora quieta foda ninguém seim porta?
Inda ter minaram dizendo quitava tudo bem. Preu nome preocupar! Dez-culparam eu! Quiquieu fiz? infiliz nim fiz nada! num fiz porque rer! fiz nada a depor pósito!
Quano falo disso num paro diz paro a dizer merda, cuspino raiva, regalo os dente deum jeito que não mostrei pá patroa quem merecia! Queime ouve me larga, me dexa falano só. Continuo falano té sozinho memo! Num precisa um de preguiça miou vindo pura mizade. Podimbora! Preciso não de ninguém. Tagarelo sozinho. Sou lixo dexado axatado no xão. axaxato? é praxa! dexa eu! xau!
Conteceu paré sequei foi ontem mas foi-se tembro; semp-relembro ou num quis queço?

 

19.

 

Torrei screveno curríclo. Pá imprimir junto co’essas página qui rabisco. Gastei os tampo tanto tempo nesse trampo! Como num botar ele no curríclo? Maizé ruim pra darem referênça. Vão daré ofênça! Vão fazera minha cavera!
– Ói qui, prfessô! qsefeiz! Venha gora me da-lhe ção! Daula pra ensinuá prende eu!
Essem prego manchano minha cartera… Se ponho, sóa panho. Se num ponho, vo ponho quê? Se nunca que antes fiquei mais de trêis méis num semviço? Num servi isso! Só querem trabaiàdor fiel, relação mais “longeva”… deva lor!, que vá longe! Querenhassim! Só naiscola que fquei mais de humano. Foi seis anos.
Disperdicei zanos! Divia tátra baiano notro lugar. Nondi? Que nem tem lugar diver gente! Tudigual.
Como voz plicar? “Saí decemprego pur queu bebi!”. “Sim prego era poco promimsor: sortei.” Ninquem vai creditar? Fiquisquisito, soa o cólatra.
Foda-c. Vo bota memo, quejeito?! Simi perguntarem… vo omintir.

 

20.

 

Quer quia conteceu? É que dia vez em quantos eu tomamava memo minhas móia máguas.
Éque nunca mim-tem-di reito de como falá. Falta sóé palavra, se nuntrem frase cedo cê dá seu jeito, intala a boca como pode, assin cômodá!
Outorturno: dataarde. Voltei cá horadalmoço roeno quente o funda barriga, que foi só pinga!
Olhei torto prorrelójo i ele mi chamô disastrasado – almosquei no bar.
Subi escad(cadê ocorrimão?) cão cuidado. Passofirme fassofirmedicomédia, subi cum quanta diguinidade! xamais atenção quiarrastano no chão, quéro meu lugar!
Eis cutei u.mas. que palavras bonita! Limprofessor limproseava! Numseiquê dunscritor alémmão dipersonage animau. Eu cáfcava prouvir mais. Eu mia traía sem sabê.
Ais tória. Entendi tonta. Umomi tinh aqui ir trabalha, cordoa trasado, nunco nseguia, tinha virado incerto. inceto. inseto.
E quano falô quele acordava tododia 5 da manhã! Soquem vive que sabe uquié rala antiz do raiá do sol. Soca fé pa droga o zolhos pa drexa aberto nu vento fresco da má drugada. Memocionei! Queria esse livro, falá queu nu inteno diss tudo aí mai nteno a madruga, das inserteza, disse a num se achá gente… Umaluna gritô dê-medo!
Que careutinha? Mamei, memocionei me. Calma-me nininha, num voo te fazer mal.
Aí “Larguessa crianssa, soltéla, senhorrrrr stá forrrrade si” e tudo horresto.
– Aguardeça pornão i preso! Seu véio mamado! Pinguço! Pede-cana! Vagabebundo! Bébiu montal!…

 

21.

 

Agoreu narrua. Escrevo escarralho dess ais tória prescarrrar de volta pra dentro dondi num posso entrá. Sujera da merda queles gosta difantasiá, dimaginá. Ninguémequévê! Babano pinga e raiva! Quereno mordê as caradas pessoas qui fazem livro pra si limpar nas folha do lixo dimundo qui tenha qui fora!
Todo mundo vai tê qui lê esses papel queu sujei! Vou infiá no meido livrolimpinho de deus-me-livraria, despe já nas pratil eiras de biblioteca, infiain muxila dcriança descola, expancar um professor de faculdade come nciclopedia até aceitar ler para vós alta!

Eis pero que meler sejamargo igualo suco dexei-ro azedo da bile demim a raiva.

 

SEGUNDA PARTE

 

1.

 

Imaginei escrever um livro curto, efetivo, profissional. Relatar o que aconteceu. Fracassei várias tentativas nos últimos meses. Não sei dizer. Não produzo obra nenhuma. Perco tempo, só.
A relação de trabalho era um teste. Período de experiência. Serviço sem emprego. Nenhuma garantia efetiva. Nunca foi mistério, a relação toda já prevista no contrato. Assim nesse como em todos os serviços. Expectativa da possibilidade de contratação. Só a recusa é garantida, por isso tentamos nos destacar, causar impressão. Eu já conhecia e entendia o problema. O difícil foi esse processo, explicar esse caminho, e que no meio me iludi e me perco contando e é sempre assim quando entro nesse assunto. Mas quero objetividade. Dizer O que aconteceu? tal coisa. Por que é ruim? por isso isso e aquilo. Pronto. Feita a acusação. Preciso contar que não me efetivaram, mas, contando, nada tá explicado ainda. Difícil dizer sem parecer só uma situação chata e omitir o absurdo. Vou te levar nesta conversa até quando eu achar que basta, até fazer sentir o que vivi. Se eu conseguir, sem me perder. Vai ver ele tava certo e eu que não presto pra nada mesmo. Também, ideia tonta, já não disseram? Esse espaço não é pra mim. Vou relatar o que me pesa, aprisiona minha cabeça. Contar todas as vozes que ficaram repetindo, ecoando na memória. Serve pra quem, isso? Terapia a pessoa faz pra si, não precisa ninguém ler. Quem disse que interessa pra mais alguém? Dói pensar que minha versão talvez nunca interesse. Se é personagem de clássico, escrito por outro, aí é bom, tem relevância literária. Em primeira-pessoa, falando coisas que se ouve de qualquer um? Vale nada.
Imagino as caretas. De ironia, de descaso. Ou de raiva até. Quem eu sou pra ficar dizendo coisas? Vão me encarar: “Tem reclamação?, faz diretamente, vem cá, tá com medo? dizendo aí na frente de todo mundo? Vem aqui, pertinho, cara a cara, onde meu discurso te alcança. Assim por escrito só você fala, um bloco de coisas ditas, não tá aberto pra dialogar! Tem medo de estar errado, por isso quer se safar da resposta, da reação, da réplica. Da represália. Se esconde porque sabe que não faz sentido. Nunca falou nada pessoalmente.” Tanta coisa que eu podia ter dito, feito. Diminuí, considerei, deixei quieto. Deixei passar.
Mas não passa, não passa.
Quero ser direto. Explicar direitinho, mas ser breve. E convincente – ainda tenho que convencer? Tenho? se foi comigo que fizeram!, ainda tem que sobrar pra mim, eu que tenho que estar disposto – tenho que tentar fazer compreender. Acusar só se tiver um júri. Com direito de ouvir a parte acusada. Com direito de discordar de mim, acreditar que não foi grave, que não tá me doendo não, que não devia doer, que aumento as coisas, que exagero, que não me aconteceu nada. Tem que convencer que aconteceu? Meu relato não é convincente.
Nisso já tô aqui e a qualquer hora pode vir o cuzão, confortável, braços cruzados, largando opinião em cima. “Que esse cara tá equivocado nisso e não sei mais em quê e naquilo outro! que essa abordagem não tem sentido, que é tendenciosa, que é arbitrária, que tá interpretando mal, que tá se apoiando em coisas que não conhece, não estudou a fundo, não fez análise, que não sabe o que tá falando. Tudo errado.” Ficar cobrando assim, pressionando a fala de quem você nem sabe qual a dificuldade que tem ou não tem? Isso não tá errado, não? O que uns falam e fazem nunca tá errado e sempre é importante. Não tô querendo atenção, pedindo aplauso, nem é pra ser nada essa merda toda. Quero nada com isso. Até aqui já era pra ter explicado. Ter escrito aqui, pouco, ter acabado logo. Não sei expressar. Tá certo, não é meu lugar isso. Ser ouvido por quem?, não, não é pra mim. “Olha, falando desse jeito, parece que bebeu, não tá nem sabendo o conteúdo do que diz, qual a relação formal entre” – à merda! Tô fazendo por mim, não pedi nada, ninguém é obrigado. Tem coisas pra eu entender, coisas que nunca falei, ou até porque nunca falei, nem fiz, porque, também, chegam em cima de você, não tá esperando, não sai de casa assim, você tá lá, de repente, “que não sei que não sei que lá”, e, é, não briguei, não me… Aí dão o negócio, ninguém explica valor, direito, claro, interessa pra quem?, só que sempre é tudo muito justo e educado, escreve aí, fazendo a gentileza, claro, próprio punho. Escrevi que pedi, de acordo com a minha, não sei, fugiu a palavra certa. O que não tava certo é que não pedi!, escrevi lá que pedi, que decidi, acordo comum entre as partes. A parte que ferra e a que é ferrada! e tá documentado, têm isso lá, pra qualquer coisa. Ainda agradeci que me falaram tchau boa sorte…
Estão entendendo nada. Quando falo assim, meio baixo, meio com medo, meio pra dentro, os outros tratam de um jeito, vem intimando já. Tem um personagem que é macaco mas que aprendeu a ser como humano e só aí interessava que ele escrevesse um relatório pra uma faculdade contando sobre sua experiência anterior de macaco. Tem sempre o jeito certo de falar – já vão notar: tô arriscando interpretação de livro dos outros. Que referência utilizo pra fazer minha teoria? Não tem. Sou ninguém. Quer pegar, pega, pra ler e rir depois, rir que não consigo, não sei essas coisas de livro acadêmico, falar mais do que precisa. Isso aqui não é coerente, não vira literatura cultuada, não entra na estante junto com os grandes nomes, não é lido em escola. Sem cerimônia, sem quem escreva sobre, não tenho não, não tenho nada. Cerimônia nenhuma, não! Lançamento? Eu sentado assinando livros pra gente metida a intelectual? Meu autógrafo só presta no caderno de ponto. Saber de mim, o que eu faço, como sou? O que aconteceu no meu último trabalho? Interessa só em entrevista de emprego. Perguntam se dei problema, por que saí, o que fiz de errado, qual o contato de lá, só aí dão pra estudar meu caso. Nunca o interesse é saber Cara, como você tá, como é isso pra você. Não, nunca, nenhuma vez.
Vou contar logo. Acabar rápido. Dar menos chance pra otário vir falar. Não confio. Essas palavras, perigosas. Depois um cata e lê o que quer em cima de mim. E palavra transborda, jorra, você vai falando e prendendo o rabo. Uma hora pisa em falso, usa qualquer coisa teoricamente errada, e, pronto. Uma língua cheia de regras incompreensíveis, igual contrato de trabalho, armadilha pra quem não entende. Sai da nossa boca, a gente mesmo escreve. Parece nosso também. Aí essa merda de palavra me trai.
E eu vou entrando nessa por que, então? Igual a pessoa levar surra da outra e voltar pra perto dela, horas depois. Já me expulsaram uma vez. Não, já errei: não foi assim. Ninguém expulsou. Tudo foi muito mais educado, polido, muito bem falado e previamente combinado. Aquela gente não erra nas palavras. Fui mais é estimulado, induzido pra fora. Sugeriram, convidaram. Só não tinha como recusar! Me enxotaram, na hora que podiam, que tinham argumento, quando era direito deles, me enxotaram. Sem dúvida. Igual não se tem dúvida pra matar uma barata. Por que abaixo a cabeça, e por que ainda volto pra esse meio? Quem vê pensa que foi pouca a vergonha da última vez.

 

* * *

 

Resumindo, é isso: era só mais um serviço, e me mandaram embora, tô sem emprego. Não efetivei depois do período de experiência.
Começou com sites de emprego e entrega de currículos pessoalmente. Até que, depois de meses procurando, achei uma vaga. Para se candidatar bastava enviar currículo e agendar entrevista. Aprovado, precisaria realizar meses de serviço, sem ter sido aprovado, para ficar tentando ser aprovado. Caso eu aceitasse. Tinha até o dia seguinte para pensar na proposta. Fui pra casa sem responder apesar de não ter escolha. Estava de volta no dia seguinte para combinar valores e horários.
Até aqui, tudo legível. Um relato. Situação de subemprego, impossibilidade de escolha da pessoa empregada. Todo mundo sabe e eu mesmo compreendia bem. Como fui me distrair? Por que deixei de saber da anulação e agora sofro, traído? Não relatei nada ainda.
No currículo escrevo bem: sei me vender. Escrita só é boa se vende. Presencialmente é mais difícil pra mim, preciso omitir coisas e, lá, me dominavam bem, nada de mim escapava. Aquele cara me lia, me tinha todo nas mãos e me lia, com calma pra avaliar e apontar qualquer coisa criticável. Na frente dele, principalmente na frente dele, não sabia dizer, ele dizia por mim – e já me atrapalhei aqui, ele se enfiando na história.
Voltando. Me vender presencialmente é na entrevista. Finjo segurança, mas a pressão baixa e me mostro incompetente para ser pessoa. Precisava me apresentar, desimportante o que eu dissesse: a patroa viu um jovem fraco. Ando encurvado, igual uma vírgula, sem me afirmar nunca. Fugindo pras pessoas não me pisarem. Vivo pequeno, me economizo. Ordinariamente culpado, escondido, endividado. Facilmente educado à falta, agradeço qualquer pouco. Vinte e quatro anos e nenhuma formação acadêmica. Ensino médio completo, mas gosto muito de estudar. Se fosse um animal: diria aranha. E o porquê: é que constrói coisas, eu diria. Omito pensamentos: constrói devagar, e coisas frágeis, e você só acha útil pra matar suas moscas, mas você me pisa se me percebe ocupando qualquer canto. Omiti, declarei só a capacidade de ser útil e a disposição para ser invisível. Sou pequeno, nada excepcional, qualquer uniforme é o tamanho certo pra mim. Passei na entrevista.
A partir daí piorou: o período de experiência. Ficar sofrendo testes no convívio diário.
Era escola particular. De bairro, não muito grande. Adianta o quê dizer o tamanho? Melhor explicar qual era o serviço. Para dizer a exploração, que pediam além do serviço. Pediam assim, naquele favor que você escolhe fazer, só não pode escolher deixar de fazer. Me atrapalho, gasto explicação à toa. Importa saber que era escola porque a patroa era educadora. Misturando ensino com mando, falava que várias das minhas funções eram “pelo aprendizado”. Nem sempre eu aprendia, geralmente só servia mesmo. “Pelo aprendizado” é um jeito de te fazer trabalhar por pouquíssimo. Não aceitei porque precisasse aprender, foi porque precisava do pouquíssimo. Olhando pro cargo, sabia onde me enfiava e nada poderia gerar uma frustração como essa. Uma coisa é saber as artimanhas da patroa, outra é criar uma relação e depois ouvir “Já falei pra sair da minha aula. Te proíbo de continuar aqui dentro. Vai, vai! Não vou continuar enquanto você não sair!… O que tá querendo?”, ouvir a coisa, o jeito da coisa, que vai contra tudo que disseram que importava. Me deixaram abrir a sensibilidade, me deixaram me importar com aquelas coisas, quis poder também. Sorri e levei nos dentes, isso que foi. Um gesto que o cara me jogou, uma atitude atravessada, eu me deixo remoer em mágoa, e fica tudo cravado aqui nuns músculos, retraí até hoje.
Que a pessoa que serve é tratada como descartável: parece muito evidente e vão soltar bocejos em cima da minha descoberta óbvia. Mas, explico mesmo assim, explico porque não adianta só saber e sofrer, precisa contar, desabafar; e explico essa redundância só pra terminar de estragar tudo mesmo, que aqui não é lugar pra isso, que pra pôr em livros interessam sentimentos grandes, frases enfeitadas. Falar explicitamente de como é o serviço, isso parece sem poesia. Não pode ter arte pra nossa vida.
Vou contar, pronto e acabou: já é um livro ruim mesmo…
Não efetivar é simples. Um pouco de tempo, horas longas, pagamento curto; logo, se a pessoa é fraca que nem eu, desanda, tropeça, faz qualquer infração ou desagrado. Aí o perfil não combina com o da empresa e já dá pra mandar a carteira dela prum lado e pra outro, fazer as contas. É assim, eu sei. Mas, me distraí! Fiquei envolvido com coisas que falavam, com textos que mostravam, e esqueci. Envolvido em livros, parágrafos deliciosos de tão interessantes, não vi mais a arapuca, entrei na aula daquele professor. Aula sobre um personagem que acordou mal e não conseguia ir pro serviço. Tem a ver comigo, na hora não entendi por que eu não podia. Me enxotaram. Trataram como estorvo, problema, defeito. Não era disso que falava a literatura que eles estudam? mas livro famoso podia e eu não posso. Fiquei quieto, não briguei nem nada.
Aceitei. Tô reclamando o quê, agora?
Pra documentar como era o serviço: na carteira tava “INSPETOR”, na prática era: 1. INSPETOR, mas chamavam de Tio – ficar sendo quem cuida das crianças nos intervalos. É Tio pra parecer familiar, será? Não funciona, ninguém nem considera; 2. PORTEIRO – abrir e fechar porta quando alguém chegava ou ia. Atender quando tocava a campainha. Olhar na câmera primeiro, ver quem era. Tocavam, eu ia. Campainha escrota, assustava, uma agulhada no nervo, parecia choque, xingo. Às vezes ainda acho que ouço tocar, até levanto pra atender; 3. RECEPCIONISTA e SECRETÁRIO – atender quem chegasse na escola, oferecer poltrona, água, cafezinho, biscoito. Ir atrás do que a pessoa tivesse ido fazer: matrícula, pagamento, reclamação, conversar com professora ou professor, conversar com a diretora. Atender ligação no telefone, anotar recados. Atender ligações no celular, anotar recados também. Passar visita ou ligação pra diretora se era pra ela. Era, geralmente. Atender “Colégio Ramo de Carvalho bom dia, ah claro, um minutinho: Vânia, é pra você”. Não esquecer de perguntar quem é e pegar contato se não tivermos, vai que cai a ligação, não tem como retornar! Não esquecia por burrice, tava é cansado. “Com quem falo? Claro. Vânia, é a mãe do Théo. Certo, desculpa. Théo de quê?; 4. CARA DA XEROX – xerocar quando professora ou professor precisava copiar prova, atividade, exercício. Xerocar em folha de rascunho se é pra prof., folha nova só pra aluno! Xerocar quando aluna e aluno precisa copiar lição. Saber se criança estava falando verdade e precisava mesmo. Se não precisava, não podia! Não é culpa do aluno que o aluno mente, você que tem que saber. Ter que saber de tudo, tudo era obrigação minha. “Tio, quero mandala!”, um desenho em círculo que pegavam pra colorir. Onde ficavam as mandalas?, mandava eu procurar, eu que tinha que saber cada bobagem que ela inventava; 5. OTÁRIO – isso nem era parte do trabalho, diretora falava, era só dar uma mãozinha se alguém precisasse de qualquer coisa. “Qualquer coisa” é uma diversidade de favores discretamente exploradores bem como: Comprar lâmpadas, que queimaram as lá de cima. Trocar as lâmpadas. Fazer tabela para calendário de aulas, por gentileza. Resolver o problema do calendário de aulas, ninguém mandou anotar errado. Arrumar as carteiras pra aulas de literatura. Tirar as carteiras pra oficina artística, precisam de espaço! Colocar de volta as carteiras porque amanhã cedo tem aula de álgebra. Apagar a lousa depois de cada aula. Colocar giz no começo de cada aula. Tirar o giz sempre que tiver intervalo, pra alunos não ficarem pixando a escola. Informar a Janair que tem que limpar a sala 16, você não tirou o giz a tempo e sujaram com desenhos imorais. Lembrar Luíza de tomar antidepressivo. Pegar pra mim o calendário de feriados lá em cima. Na segunda gaveta, tá lá sim. Procurar direito. Ir logo, preciso pra agora. Ligar pra mãe da Luna que tá passando mal. Cortar esse galho aqui que tá atrapalhando o caminho, vai machucar alguém. Marcar um dia no salão, fazendo a gentileza, pro alisamento do meu cabelo. Dar uma olhadinha nessa turma que estão fazendo atividade, preciso atender uma ligação, valeu cara! Levar o Rian no banheiro, ele tinha machucado o pé e estava em cadeira de rodas, pesado pra caralho. Levar agora, Tio, Rian precisa ir no banheiro. Só pra sair da aula, impossível mijar tanto. E qualquer outra coisa que precisasse ser feita e que poderia ser feita por qualquer pessoa mas seria feita por mim, pra não sobrar tempo deu reclamar, e nada tinha hora pra acontecer então podia ser tudo ao mesmo tempo, foda-se o Tio. E, 6. DATILÓGRAFO – os nomes das funções eu que tô dando, só me diziam “INSPETOR” no contrato, e no tratamento “Tio”. Não falavam funções, só davam o trabalho como quem diz “faz”. Eu digitava lições, principalmente as de português.
– Tô vendo que tem mais interesse nas de português?
Eu gostava quando tinha texto. Bonito de ler. No meio de tanto trabalho vinha meia dúzia de frases maravilhosas. Era tarefa que me solicitava não só como pedaços de pessoa feitos para cumprir demandas, uma mão pra abrir porta, uma orelha pra guardar recado. Fazer aquilo me pedia inteligência: fazia lembrar que eu tinha inteligência, sensibilidade, experiências próprias. Que não era a pessoa inexperiente, não profissional, que tava lá “pelo aprendizado”. Digitei uma lição que tinha trecho do livro “Carta ao pai”, livro que era mesmo uma carta que o autor escreveu falando um monte pro pai dele, que era um patrão. Digitar a lição era oportunidade de mexer na biblioteca. Peguei o livro, e tinha um trecho que anotei: “Coisas que no início eram naturais para mim me atormentavam, envergonhavam, principalmente o tratamento que você dispensava aos empregados. (…) Você chamava os empregados de ‘inimigos pagos’, e eles com efeito o eram, mas antes ainda de terem se transformado nisso você me parecia ser o ‘inimigo pagante’ deles.” Isso não era pra colocar na lição.
– Das de literatura gosta mais, então.
– Mas não sei regras gramaticais, dona Vânia. – pra que fui abrir minha boca?
– Tem vontade de aprender? Mas tem que se esforçar. Dou oportunidade. Mérito seu agarrar ou não.
Achei ela tão boa quando me ofereceu aquilo. Emociona alguém te dar coisa boa. Não lembro de ter respondido, mas acho que sorri. Sorriso tonto, mal dormido. Tem cachorro que de tanto apanhar se mija quando alguém coça sua cabeça. Foi assim que eu me deixei distrair. Por causa destas merdas de páginas manchadas de conhecimento inútil. Entrei ingênuo nessa, burro, nem reparando, quem escreve personagens que estão na merda é gente que não está na merda, pode falar da sujeira que for, o livro é sempre limpinho. Na hora, achei boa, pedagoga dedicada, pessoa bondosa. Queria que tivesse me oferecido, com a mesma cara, com o mesmo tom de voz, que tivesse me oferecido uma paulada na orelha. Aí não me enganava, recusava. Doía menos.
Tivessem cara de animal peçonhento: a gente tomava mais cuidado.
Por um tempo, ótimo, a biblioteca, referências de livros. Aí só soube falar de literatura: único jeito de falar de mim. De repente, não dava mais, eu tinha feito algo inaceitável, meu perfil não correspondia com o da empresa, disseram que já dei problemas antes. Agora só sei falar disto, demitido eu todo.
Eu devia ter interrompido:
– Chega, podem parar com esta história. Querem escrever minha derrota, a tragédia do subempregado, eu sei, mas nunca quiseram me dar um papel efetivo nessa intriga. Acabou, não adianta suspense, sei que no final não me efetivam! Não vou continuar sendo objeto que vocês narram. Agora a cena é minha, eu que tô escrevendo. Lembra aquele momento, depois do trecho da ligação que recebeu do cara do R.H.? Você foi afobada pegar o telefone e o arrancou da minha mão. Esbarrou em mim. Nem viu! Desastrosa! Agora eu que te passo um bilhete de bronca, leia bem! Não importa se ficou tomada pelo papel de patroa, não importa quantos gastos e prejuízos ficou delirando na sua cabeça. Nada esconde: você fez isso! tá escrito! e todo mundo pode ler! tá documentado! Você não pode fazer isso. Vai pedir desculpas. Você não escreveria assim sobre alguém da sua classe social, então, pede desculpas.
Quem me visse agora veria é uma cena de comédia: olha ali o Tio, viajando, fazendo careta, ensaiando frases que nunca disse e nem vai dizer. Situação feia. Como assistir a uma barata brincando sozinha. Impossível contar a feiúra do sorriso. Feiúra que este inseto ignora, tá se divertindo, se achando forte. Na cabeça, resmungando rebeldias, se dizendo em greve contra um mundo ruim. Uma barata de barriga pra cima: prende as próprias asas, não tem como se libertar, se faz mal quando se debate. A incapacidade pesando sobre todos os membros, pernas e braços compridos pra além do tronco, esticados em direção a nada, largados, inúteis: demitidos. Inseto desmantelado. Tão magrelos os membros vadios. Quem pode dizer que uma pessoa esteja errada em expulsar esse animal de qualquer canto? Se não é arrumadinho, não agrada olhar, não alimenta o ego da pessoa, não protege, não nada, chute por baixo da porta para fora esse bicho. Olho-me agora, uma coisa daninha mesmo. Grifando um rastro abafado por dentro dum livro, raspando patas pegajosas em parágrafos impossíveis de organizar, que nunca virarão uma história vibrante. Nem perto dos livros bons, com suas frases contundentes, todas necessárias. Este aqui é um desperdício. Fraco como eu sou fraco. Por isso não reagi, sonhando ser bicho em que alguém poria estimação. Querendo ser bicho doméstico: sou imprestável sem dono. Se aparece qualquer mão com coleira e porrete, tenho que aceitar, só sirvo pra isso. Passava horas digitando liçãozinha de português, acordava às quatro pra ir praquele lugar; nunca atrasei. Agora planejo acordar cedo pra escrever meu livro. Pelo menos um e-mail, fazer uma denúncia. Um xingo que seja! Acordo e já é meio dia, derrubo o despertador, mando uns currículos, tombo na cama. Pasmo a janela até escurecer lá fora e ser tarde demais, de novo tarde demais, sempre tarde demais. Pra que ainda alimentar isto?, por que não deixar definhar na cama mesmo? Alguém uma hora vem, o fedor chama, e esse alguém embrulha os restos neste lençol mesmo. Se colocar lá fora acho que o lixeiro leva.
Só não me acabo por fraqueza e covardia. E agora porque quero terminar este rabisco todo aqui. Acabar é o quê? Desistir. Ou outra coisa. Não sei que outra coisa seria. Vai ver escrevo pra não me acabar tão cedo. Vamos ver quanto duro.
De novo tô apostando minha existência nas páginas de livros. Vai nessa, trouxa. Monologando essa choradeira anêmica, depois, vai ver e tá tudo uma porcaria, vê que gastou tempo à toa. Iludido numa ideia de vida de escritor, que é, só pode ser, é tipo de gente que tem sobrando tempo pra gastar. Sem prejuízo.


2.

 

Desperdicei várias folhas, já. Canseira burra, tarefa mais inútil. Fraco, apoiado na mesa, a mão mole coçando este papel com a ponta da caneta. Quero conseguir o quê? Desistir né melhor?
– Que aconteceu? Você não tá mais afim?…
Qual era a situação. Passar a limpo pra diretora o que aconteceu. Eu sempre no constrangimento de não saber contar, não saber expressar a gravidade do que sofri. Eu tava lá igual aluno quando apronta. Professor Lauro pra explicar pra Vânia o que aconteceu. Eu explicando não servia. Ela interrogava. Pra ele, eram perguntas por informações, pra mim, perguntas pra constranger:
– Que aconteceu ontem? Você não tá mais afim? O que…
– Por quê?!, foi a única coisa que respondi. Aí ela mudou de caminho, de estratégia. Esse papinho. Precisa estar afim, é? Tenho escolha? “Num trabalho a gente permanece enquanto tem interesse” o prsor falou numa hora dessa reunião. Tá bom. E quem pode perder interesse em receber salário? Ficar interessado em ver cortarem a luz por falta de pagamento? Interessado em abrir mão de coisa no caixa do mercado? Ficar remoendo raiva? Ele não vem ver se é bom, se parece interessante este monte de mágoa guardada que é tão ordinária que não serve pra literatura! Já tô resmungando. Sou uma goteira, lacrimejando desperdícios de tempo de vida.
– Que aconteceu ontem? Você tá bem? Aconteceu alguma coisa?
Perguntava com uma cara. E a merda é que não sei escrever cara. Minha palavra é carimbo, não descreve sutileza de rosto de pessoa. Desisto de não explicar nada, vou dormir, é o melhor que faço, dormir muito pra existir menos.

 

* * *

 

A cara exigente dela no meu sonho, indescritível. Fui obrigado a levantar da cama. Escrevo, porque, parece que enquanto não me livro de alguma coisa, não termina meu expediente, fica a cara dela impressa do lado de dentro das minhas pálpebras.
O que é que tinha a cara dela? É que falava dum jeito! Parecia uma piada dela. Como se eu tivesse ido trabalhar pelado e ela perguntasse “tem certeza que não tá esquecendo nada?”. Parecia que aqueles dois iam estourar de rir da minha cara. Pular em cima da mesa, enfiar o dedo na minha bochecha e rir, se gozar de rir.
– E então? No que tá pensando? Te fiz uma pergunta.
Me vinham com papos misteriosos, mas aí, quando eu tentava entender (que cara eu tinha?, dolorido, em pensamentos difíceis), reprimiam minha cara de dúvida. Eu que era estranho? Pra eles, tudo muito sério, certinho. Eu não tava acreditando. Quis perguntar se não era brincadeira de mau gosto. Não tive coragem. Tentei falar com seriedade. Rápido mostravam que era um jogo que eu desconhecia as regras e só tinha como jogar errado.
– Não entendo. Agora vem dizer que não gostava de trabalhar só na portaria…, era o prsor Lauro que tava falando. Ora, você nunca disse nada disso antes. Muito conveniente, agora! Pena que recorra a este tipo de… Uma pena.
Em baixo da mesa lembro que o prsor cruzou largo as pernas. A mão fofa deslizou carinhosa na própria calça. Como era limpo o sapato. Sem desgastes de ser pedestre. Fico me perdendo, farejando detalhes insignificantes das lembranças!
Me olhavam como se não tivessem possibilidades de me entender. Com dó, tentavam saber que tipo de esmola eu tava pedindo, minha boca só gemendo incoerências pra ela e pra ele. Tavam assistindo a um inseto encurralado, e não entendiam. Querendo ajudar só se o bicho soubesse formalizar o pedido de locação dum esconderijo mofado. É um “não te entendo” num tom de “não posso fazer nada”. Uma dó preguiçosa. Até cruel. Caras fáceis de “você é incapaz… sua explicação é confusa, sua narrativa não é efetiva”. Não é que eu fosse incapaz, mas, o sono curto, as refeições irregulares… Com pressão fraca, sem garantia de conseguir ficar acordado. Que efetividade esperavam? O que piora, que azeda a vida, é notar que tem ser humano achando que pode se valer em dinheiro e que vale mais dinheiro que você. Faz o salgado da estação ficar vencido na boca do estômago. Vou pro trampo comendo mal pra uns comerem com saúde em cima do meu trampo? De engolir desaforo ia cavando uma úlcera. Em casa eu urrava de ódio. Batia em coisa, pegava objeto pelo pescoço “agora cê vai me ouvir! não vai me enrolar!” e era tapa sobre tapa, eu firme, sem deixar me passarem pra trás. Tinha argumento contra todas explorações, discursava política com metáforas e ironias. Na frente dela e dele, gaguejava, tremia, tinha voz molhada de choro.
– Tem uma coisa, sim… incomoda… que isso de trabalhar pelo aprendizado… Não é que não… É que não sei se vocês, claro que… É o quê: mão de obra barata.
Vânia olhou com uma cara!
– Por que tá fazendo isso?, ela falou, magoada. Cara de quem recebeu ofensa. Quase pedi desculpas.
O prsor tocou meu braço, cara de preocupado, falando baixinho, amansando fera. Escrevo tudo aqui mas não vira prova de nada. Só minha interpretação. Não interrompi, não apontei o que tava acontecendo na hora que tava acontecendo. Passou. Tudo resolvido, depois. Na frente de outras pessoas, precisavam que eu sorrisse, eu sorri. Tudo aparentando cuidado e justeza, e eu que ajudei na aparência. Acordo comum entre as partes. Tudo tinha muitas normas pra se poder dizer, e eu não queria demonstrar má educação.
– Olha, Tio, vou ser muito sincero com você. Não é justo você fazer isso. Coloca a discussão nuns termos que… Assim fica inviável! Até agora estamos sendo muito respeitosos com você!
Difícil responder na hora. A coisa que foi dita, passa, o momento, passa. Não tem tempo de pensar e não sei falar sem pensar. Não sei reagir. Só sirvo pra ler e escrever, dialogar sozinho, que se viro a boca pra alguém solto só rabugices, piadas tristes. Ironias defeituosas, que só eu entendo e não mudam nada. Aí, calo. Asfixio de tão calado. Patroa e patrão se aproveitam, pisam na minha orelha e disfarçam com “bom dia”. Funciona. Só sei ser bonzinho.
– Nunca imaginei que tivesse interpretado os fatos assim… Vânia falou.
– Dona Vânia, aí era eu que tava adiantando a conversa, precisava ter certeza de uma coisa: Dona Vânia, você entendeu, aquela confusão toda, grito e tudo, a barulheira toda, entendeu que a culpa não foi minha?
Vânia nem me respondeu, precisou dar uma saidinha, resolver coisas. O prsor encostou a porta. Deu um tempo, tão constrangedor.
– Agora, Tio, posso falar. Ué, sempre podia. Explicou com calma pra burro entender, explicou que o que chateou Vânia foi que nem me dei ao trabalho, ele falou, que nem me dei ao trabalho de pedir desculpas. Sei, vai o funcionário pedir desculpas: arca com o prejuízo, já que assumiu culpa! Ele pedia pra eu escutar, não começar a dizer nada. É o seguinte, você não tem experiência no ramo escolar. Que ela me deu uma oportunidade, que eu tinha que escutar mais, que é incoerente, num período de experiência, bancar postura de profissional. Disse: Soa arrogante. Te conheço, ele todo amigo falando que me conhece, Te conheço e sei que não foi o que quis passar, sei que não é assim que você pensa. Só que falou que pedir desculpas era o mínimo, que o que fiz era besteira. E que não era pouca besteira. Você entrou na sala de aula! Durante a aula! E pior, resistiu quando te convidei a se retirar… E eu não sabia, não era eu lá, não sabia como que tinha sido o tal convite? Me explicava de outro jeito o que fui eu que vivi! Se eu fervia, ele me cuidava como parceiro de novo, falava Olha, Tio, eu sei que há algum tempo que você tem guardado alguns incômodos em relação ao trabalho aqui. E te apoio, acho que tem que reivindicar seus direitos. Porém – e nisso ele ia falando, tanta frase, tanta palavra, eu me perdia e nem sabia por onde discordar; não tava gostando nada, mas só achava que era erro meu achar errado uma coisa que ele falava tanto e sem parar – há o espaço correto para a colocação das propostas e reclamações sobre o trabalho. Falou que era coisa de ver com a Vânia, só, não tem nada que todo mundo ouvir, saber. Não era pra envolver a escola toda! Naquele momento, você ficou alterado, já com raiva do trabalho… O que eu podia esperar? Não ia deixar meus alunos correrem o risco. Falou uma coisa que eu era vingativo e que ia me vingar errado, me vingar de aluna ou de aluno, ou dele. Geralmente, você está lá, certinho, mas, ontem, eu não sabia o que podia esperar de você. Na dúvida, precisei conter você. Perguntou se eu sabia que cara eu fazia. Não sabe… E então? Depois de tudo isso, não acha que deveria ter, antes de mais nada, tava perguntando isso, não deveria ter chegado hoje pedindo desculpas? Falou que era o mínimo.
– Olha, Tio… falou Vânia quando voltou, tudo era “olha, tio”: não vou te condenar por esse deslize. Mas, veja bem, você vai ter que concordar comigo que você já deu problemas antes.
Lembro que falou assim da impressora, quando reclamava com o cara que vendia cartucho de tinta. “Esse tipo não é bom: já deu problemas antes”.
Explicou que era sobre os apontamentos, que evolui pouco, citou aquela apostila de português que irritava ela só de lembrar. Falava didática, machucava com polidez: me ensinava que a razão era dela.
A conclusão era que, por tudo isso, meu perfil não se enquadra, postura profissional incompatível e que infelizmente…
– Não, por favor… eu pedi.
– Cara, isso sempre foi o combinado, você soube desde o início!, ele falou, sem brigar, fácil, mexendo na garrafinha de água dele. Corrigindo minha incoerência. Pra ele, tudo inofensivo. Sem nem olhar, cabeça baixa, a fala esmagada entre o pescoço e o peito. Achei até que ele tava escondendo algo. Tava segurando riso? achei. Eu queria ver: ele tava rindo? Era ceninha, eu ia descobrir? Olhei bem pra ver. Não se entregaram. Nada. Eu só desacreditava.
Me indicaram outra salinha e por que eu fui?
Sempre simpático e bom serviçal. Se me chamassem pra uma sala, largassem uma caneta no chão, capaz deu buscar igual cachorro. Capaz deu obedecer também se me avisassem que não precisava levantar e que era pra assinar ali mesmo no chão, de próprio punho, meu pedido de demissão. Ainda cuidaria pra não sujar a folha.
Não foi no chão, mas deram papel pra eu escrever. Ela que falou pra eu ir embora, mas o modelo que deram pra copiar era de quem pede pra sair. Escrevi igual, certinho, assinei. Eu assistia às conveniências de tudo pra ela, mas era como se fosse uma história que não é minha. Eu não fazia nada. O personagem seguia sendo tapeado e eu só olhando, achando ruim e só olhando. Igual quem lê que não pode fazer nada.
Mais dois dias que faltavam pra finalizar o contrato. Eu só lá, passando chateação. Horário de entrada e saída, eu no portão, levando as caretas das famílias que souberam da história. Careta de ódio, careta de dó. Entre esses horários, digitava lição. Eu não era ruim nisso? Me colocaram pra ocupar o tempo? E eu obedecia. Ninguém quase nem olhava. Eu não descansava, gastando os tendões dos punhos no teclado. Copiando letra pequena debaixo daquela luz fria ansiosa. Podia não fazer o serviço. Fiz. Ou fazer errado, sem cuidado. Fiz direitinho. Podia eu ter pedido as contas, sempre soube que ia acabar assim! Podia pedir demissão dizendo que era aquela escolinha que não era compatível com o perfil do profissional que eu sou! Não pedi.
Não pedi. A coisa te pega. Ninguém quer não conseguir, não ser capaz. O jogo é injusto, mas te deixam entrar! Dentro, cê esquece que já começa perdendo, não quer perder de jeito nenhum. Contorço este livro inteiro em rancores, mas, no fim, quero mesmo é que gostem e aprovem.
De repente, eu em casa. Não tinha mais que ir, o despertador me enganava. Estranho mudar a rotina assim. Queria largar aquele serviço, mas assim? Nem vi! Parece que nunca aconteceu, que nunca trabalhei lá. Tudo que me fizeram, nada. Tudo que me gastei trabalhando, nada. Tô no desemprego agora igual nunca deixei de estar, igual antes. Agora mais assustado, desconfiado. Sem confiança nenhuma. Me escondendo igual inseto de esgoto. Tudo que eu era, tudo que sabia antes: nada.
Um tempão você lá, nada adianta, se vira todo e nada. Pensa e cuida e corrige, quase reza pra dar tudo certo. Aí vinha bronca. Recadinho escrito em vermelho gritando no balcão da recepção. Igual uma coisa deixada lá pra eu me machucar, uma armadilha. “Por favor, você não presta e não presta pra nada. Muito obrigada”. Até agora parece que vou achar recados dela por aqui, na minha casa. Na louça. Nas contas.

 

* * *

 

Precisava continuar. No que eu tava atrapalhando? tava e pronto.
Tinha coisa que eu não sabia. Que era pra parecer que eu não sabia. Que faziam de um jeito que não tinha como saber. Uns mistérios, critérios misteriosos de qualidade. A pessoa fica sem ter como fazer qualquer coisa sozinha, sem perguntar. Ao mesmo tempo que ninguém gosta de parar pra explicar. Ao mesmo tempo que tem que fazer, e rápido.  Aí que eu tava atrapalhando por isso, porque sim.
E não podia ser útil, eu, lá? Eles tinham a leitura da coisa, mas quem podia contar a vivência? Ou, se não podia, tudo bem, mas, só dizer, só explicar, olha, não sei o quê e não vai dar, eu entenderia, não entendi nada, de ser expulso é que não entendi nada. A bronca vinha, o olhar de “cê é inconveniente”, e nem dava pra eu saber pra quê, que que fiz. Não entendia nem me explicavam. Só mandavam a bronca e só.
– Você que tem que saber.
Não esqueço quando me falou assim. Só perguntei de um dicionário, onde ficava.
– Você que tem que saber.
Perguntei quando ela tava conversando com uma outra professora. Esperei, não invadi o assunto dos outros, nem atravessei, nunca consigo interromper. Esperei ela me olhar e perguntei, rápido pra não atrapalhar. Aquela respostinha.
– Você que tem que saber.
Nem tenho como contar mais nada. Aconteceu isso, assim. Daí fui atrás do tal dicionário sozinho, mas, ela ter dito isto! Acabou a cena aí. Nem sei explicar mais, nem sei como continuar.
– Você que tem que saber.
Aquele jeito! Resposta sem me ver, torta. Atravessada. Sem fazer questão de comunicar. Pareceu que soprou fraco as palavras, sem dar importância. Ela nunca assumiria. Nem a professora prestaria como prova. Pra elas, nada aconteceu. Coisinha à toa. Nem sei se ouvi direito, jogou fraco a frase, eu que tive que me aproximar, me curvar pra pegar no chão as meias palavras.
– Você que tem que saber.
Duvidei, até olhei pra ela, procurando verdade. Não encontrei olhos, que tavam no assunto com a professora, pra ela os olhos atentos interessados.
– Você que tem que saber… desse jeito, bronca econômica. Não desperdiçava força comigo, não precisava.
Absurdo! Minha obrigação saber de cada detalhe? Tudo organizado segundo a cabeça dela, tudo arrumado de jeitos bobos. Nada institucional, nem isso, parecia tudo a casa dela, colocava cada coisa onde queria, ou onde esquecia. Onde fui achar a merda do dicionário: num armário, na prateleira mais alta, entre livros nada a ver! Eu que tinha que saber. Patroa cínica, se fazendo de pedagoga bacana, de relação sem hierarquia e tudo mais que ela inventava com termos simpáticos. Na hora de pisar, não hesitava.
– Você que tem que saber.
Como não sabia, como não tive certeza do que ela falou… Não que não tivesse percebido, que não entendesse que ela… mas, sei que eu tinha que – como? olhasse a cara dela de não ter feito nada: não tinha nem como acusar de nada! Acabou que fiquei bonzinho e fui farejar até encontrar o dicionário. Uns minutos depois, quis, sim, perguntar que que ela tinha me dito. Perguntar desse jeito, intimando já, pra conferir. Se confirmasse a ofensa, eu… Aí não teria nem mais como ter dúvida, e eu… Mas, como tava atrasado pra perguntar, ué, tinha demorado demais, sem sentido nenhum, nem ia lembrar, ela, ela não ia lembrar… Desisti, inventei dúvida, considerei que ela talvez tivesse errado mas que ela é gente e gente às vezes erra.
Não disse nada, que seria vergonhoso falar de insignificâncias. Mas, esquecer não pude, fiquei mordendo os dentes, latejando esses pensamentos envenenados dentro da cabeça.

 

* * *

 

Mas a avaliação foi dura mesmo naquele dia que aquela lição de casa voltou, entrando de salto alto pela porta que eu abri, depois caminhou nos passos resolvidos da Vânia até a sala da direção e me chamou pelo telefone da recepção. Fui chamado pra ela encaminhar a crítica: despejou na minha orelha o que a mãe fez e não fez de reclamação.
– Como é que você deixa acontecer de um aluno levar uma atividade desta para fazer em casa? Que desleixo!
Não é que deixei. Ele pegou a lição, não fez na escola e levou pra casa.
– Que exemplo nossa escola passa entregando uma folha de atividade, com nosso cabeçalho, com nosso logo!, cheia de erros básicos? Como depois o professor vai exigir capricho do aluno se ele recebe uma folha destas para responder?!
O que escrevi? Já nem lembro direito, não consigo repetir. Era pra ter na lição um parágrafo de literatura, aí tinha exercícios para se fazer de interpretação desse texto. Podia procurar um livro, mas quis uma coisa que não sabia onde tava, nem se tinha em algum livro. Não procurei livro, escrevi eu. Um paragrafinho, sem pretensão de nada. O que falava: falava do que eu via, das tarefas de todo dia lá. Meu assunto não servia, só dizia de coisas que ninguém queria fazer, coisas com as quais ninguém se importa, ninguém pensa, ninguém pensa em querer saber. Muito menos ler sobre – pra quê ficção tão ordinária? Te enchem a cabeça o dia todo e todo dia com banalidades: se alguém te ouve, cê quer falar, e só tem pra dizer tarefas, broncas, lesões, tristezas, cansaços. Só posso narrar experiência minha e gastaram ela toda em horas por dinheiro.
O resumo da correção: não prestava.
Depois de gastar a bronca na minha orelha, emendou no que ela chamou de avaliação, que já tinha dito que faria pra falar do meu desempenho. Quando falou, já sabia, significava que ia reclamar. Ela nem tocou no assunto da possibilidade deu não efetivar, isso é importante notar! Disso falou só na assinatura do contrato, nunca mais depois, só no fim, na hora de dispensar. Durante, nada. Disfarçando, inventando capítulo por capítulo da historinha toda, sem interromper pra discutir o sentido do emprego ruim. Fazia tudo parecer natural, um acontecimento causando o seguinte e indo assim, parecendo que aconteceu o que tinha que acontecer. Que era o único jeito, que tudo corria naturalmente, causas e conseqüências.
– Você tinha dito que queria aprender, não era isso?
Não. Dizer, não disse. Só que não disse o contrário. E também, nunca me opunha a nada, não ia ser num momento daquele, que eu já tava devendo, não ia ser ali que eu ia corrigir a patroa.
Ela prosseguiu, quis me mostrar o que eu errei, pra eu entender. Tinha o meu parágrafo imprestável, tinha o vocabulário informal demais, tinha falta de objetividade… E que se eu continuasse com dúvidas depois, vai ver notou que eu não ia entender nada, se tivesse, podia perguntar pra ela ou pro prsor Lauro. As ajudas do prsor…
Lembrando, lembro também que eu estranhava as coisas. No primeiro instante, não achei bom ter ajuda dela e do prsor: ia ter dois supervisores. Não era tão bobo pra não notar. Ia entendendo tudo, percebendo todas as coisas, aí que tudo trava numa incoerência: falo agora, conto e explico tudo – onde enfiei tanto entendimento na hora dos acontecimentos? Quando eu achava que tava preparado, me surpreendiam, nessa hora Vânia me soltou um elogio!
– Não entendo seu espanto… Sim, vejo méritos no seu trabalho. Por que não? É muito louvável sua capacidade, por exemplo, de reconhecer e assumir seus erros.
Eu só servia pra estar errado mesmo. Quando acertava, o acerto era saber que tava errado. Hoje entendo e falo isso, mas, ela elogiando! Cê tá com nervosismo de ter feito coisas mal feitas, vendo a hora que vai perder salário e autoestima, aí entre broncas vem um elogio!
Depois ela falou mais coisas que chamava de apontamentos, que serviam pra eu aceitar fazer sumir todas as minhas características inconvenientes atrás do uniforme da minha função. Eram ordens, entendi conselhos. Me emocionei, ela percebeu. Até se envergonhou um pouquinho, acho que não esperava me dobrar tão fácil. Agiu meio “não precisa agradecer”, enquanto eu guardava no coração os valiosos conselhos de minha amiga. Valiosos mesmo: valiam o quanto valia minha submissão pra ela; no mínimo, um pouco lucrativa, que essa gente não assina contrato que não dê retorno.
Aí que Vânia me pôs mais em contato com o prsor Lauro. Ele simpatizou com a ideia de me ajudar. Sempre vinha com lições voluntárias nas horas vagas – dele, eu não tinha hora vaga. Lembro de uma provinha que me fez enquanto eu encadernada uma pilha de apostilas:
– Se você diz “Usaram-me.”, quem você acha que é o sujeito da sentença?
Eu? Não era. Me ensinou que não, que sujeito é quem realiza a ação:
– Você é objeto.
– Quem é que me usa?, perguntei, sobre a frase, Quem é sujeito?
Pensei mais um pouco:
– É sujeito oculto que fala, né, quando o nome não aparece na frase mas cê sabe quem é?
– Sim, mas não é o caso desta oração, aqui não tem nenhuma pista. Não tendo como determinar, diz-se sujeito indeterminado.
Conveniente essa gramática.

 

3.

 

O prsor. Cheio de histórias de livros que contava comentando coisas, contava como se tivesse visto, vivido. O que conseguia, eu copiava da lousa que minha função era só apagar. Letra linda.
Não dava pra imaginar. Uma pessoa daquela, gritar com você? Tão suave, tão pertencente às pilhas de livros, cê pensa que só sabe ler e dar aula. Ar de escritor, tranqüilo, sem fazer força, sem falar forte, força nenhuma. No fim me ofendeu, e parece que desde o começo, mas, como ia dizer, com aquela carinha, como ia dizer que me ofendia, que xingava? Tava me dando conselho outro dia! Vinha sem proteção, peito aberto. Vânia era blindada: tinha sala dela, tinha burocracias do tal do R.H., tinha relação contratual. Ele, não. O prsor é quem vinha me estender a mão.
Naquele dia eu tava com ódio. Se o prsor tivesse chegado mais de repente, falasse com um pouquinho menos de compaixão, apertasse, um segundo que fosse, apertasse os dentes, eu encrispava também, pulava em cima, era unhada, mordida e espirro de sangue pela sala. Briga honesta. Não aconteceu nada disso, ele foi civilizado, só eu nervoso na conversa, as mãos tremendo que escondi debaixo da mesa, com vergonha dele notar.
Dizia palavras sérias, mas a voz baixa, a barba em volta parecia tão macia, a voz não tinha seriedade de bronca. Era seriedade de respeito. Aquele jeitinho dele. Qualquer grosseria minha virou proibida, virou deslealdade. Seria provocar o prsor mais legal e perder o respeito duma escola toda, legião de alunas e alunos leais, expulsão vergonhosa, mil cabeças me assistindo pelas janelas.
Mas ainda não! Ainda não era! Essa relação só veio depois, tô me adiantando, naquele dia, naqueles tempos, era admiração. Pensa que era meio noite, fim do período da tarde, e ele disposto. A escola quase toda quietinha, tirando o barulho riscado que vinha de uma sala e ecoava pelas escadas vazias. Eu imaginava que o prédio rosnava quando era assim – mas era eu, arrastando carteiras. Arrastava e empurrava mesmo, fazendo errado mesmo. Minha música de protesto. Barulheira ruim pra eu poder xingar debaixo do som, bem a minha cara, esfolar a garganta de tanto gritar tudo que penso, até cuspir ela pra fora numa bolota de sangue – sem ninguém ter escutado o que disse. Quase ninguém! Constrangimento: eu, vomitando ofensas sobre a patroa – fui notar, tinha ouvinte. Igual se a partir de agora eu notasse que o prsor tá lendo isto aqui.
Cara de leitura difícil. Ou de leitura da qual se desconfia, vai nutrindo aquela discordância, mas vai deixar pra dizer no fim. Pensando o quê de mim, disto tudo aqui? O que pensa sobre mim é a sentença mais irrevogável. Me importa demais, mas não posso mudar. Só deduzo e aceito como verdade. Cara de preocupação. Como me viu? Que cara eu tinha? Minhas mãos nervosas, o desodorante se agüentando mal no fim do expediente, a voz machucada, rouca. Rapaz tosco, sem jeito de ser! Devia notar: a revolta toda é pra compensar minha falta de saber dizer. Ele que bem sabia dizer, tinha toda tranqüilidade que existe. E me olhava.
O prsor parou por minha causa. Teve a disposição de atrasar sua volta pra casa, vir conversar com este animal. Não era obrigação dele, e não teve nem pressa. Ele mostrava que se importava, e eu só no calafrio envergonhado de terem vindo falar comigo. Interagir, dialogar. Eu secretamente sabendo que não sirvo pra isso. Pediu licença, entrou, me cumprimentou e falou comigo. Perguntava coisas e até ouvia resposta. Eu só me envergonhava: “Por que tá assim tão perto de mim? Espero que eu não esteja fedido. Devo estar esquisito, me inclinei um pouco pra trás. Preciso de espaço, pra quê isso, os dois aqui, em pé? Vamos nos beijar? Não consigo dar um passo pra trás. Pode ser deselegante. Ou pode parecer que eu tô acuado. Não, não tô, tô calmo e vou demonstrar. Tão quente aqui. Depois de serviço que esquenta o corpo, ficar parado só faz sentir o suor escorrer. A sala já é abafada, com essa proximidade fica sufocante. Ele me olha de tão perto e com tanta atenção. Lê meus pensamentos. Ri deles discretamente. Quero enxugar o suor do rosto – o caminho que essa gota faz, atravessando minha cara toda –, não posso. O movimento do braço nem cabe, tão colado que a gente tá. Por que tanto tempo? Ele acha que tô aprendendo alguma coisa pelo olhar. Se nem consigo fixar meus olhos nos dele! Consigo encostar a ponta do dedo no bigode. E rápido. Só isso, ele me contém. Ele tá no comando.”
Depois falamos um pouco. Mostrei um rascunho meu, de carta que queria entregar pra Vânia. Pôs uma atenção grave nas minhas frases. Deu conselho. Era pra fechar aquilo comigo, dobrar pra nunca mais abrir. Pra que amenizar minha revolta, ficar evitando minha briga com ela? Mas, achei certo, não adiantava mesmo querer provocar a patroa, senti vergonha de ser moleque que tentava ofender, que falava bobagens. Que não sabia esfriar a cabeça e pensar numa solução inteligente.
– O que escreveu é interessante, mas não precisa se colocar em embate.
O prsor não quis se envolver, ficou xeretando sintaxe. Escrevi falando de coisa séria: na mão dele virou ficção, linguagem. Me estimulou a ler umas referências. Meus rabiscos lembraram ele de escritores importantes. Citou uns nomes. Inventou um jeito dele de poder gostar.
Muito difícil ser tão sonso igual aquele professor. Horas parado, só virando página de livro. Nunca ficava agoniado! Não importava que livro, da dificuldade que fosse, lia calmo e às vezes até voltava página! Sem pressa. Eu gosto. Amo livro. Mas, depois de um tempo, balanço a perna, olho pros lados pra tudo que acontecer em volta, se tô sozinho planejo me masturbar, difícil ficar nisso de palavrinha por palavrinha. Mas, gosto tanto. Gosto de ler, de pensar. Pensar em como pensam as pessoas. Só às vezes que enrosco, a cabeça parece que desliga e tudo vira só frases, só manchinhas pretas enfileiradas no papel. Tô me desculpando diante da possibilidade da cara do prsor metida no meio deste livro, julgando. Tem medida a capacidade artística, a capacidade literária? Diante dele, tem. Constrange, parece que tem que assumir: sou menos das letras que você; olhando, a gente te vê liderança, professor, detentor de conhecimentos; eu só cuido do portão, dos corredores, telefone… Ler, pra mim, é prazer difícil, tenho que inventar possibilidades. Se você nasceu graduando, usando o cordão umbilical de marca página, na sua frente sou escritor imaturo e irresponsável e despreparado. Lendo, algumas vezes, mas não é sempre!, lendo eu perco o sentido, ou mudo, imagino coisas, lembro do cansaço do serviço, da ofensa da patroa, de conta, faxina, salário. Outros pensamentos vão ditando palavras em cima da leitura, aí tropeço em consoante e ponto, o olho seguindo difícil as linhas, apoiando com dedo, sonolento em cima, ignorando sentidos, quero arrancar folhas difíceis pra passar logo, dar uma mordida no livro, meter uma escarrada grudenta disparada no meio do livro. Fechar e guardar de volta, certinho, ordem alfabética. Deixar. Pra ver diferente quem for ler depois.
Olha o tipo de ideia! Vergonha ser assim, animal tão diferente, bem durante uma aula de literatura, que tinha uma coisa tão suave. Quietinha. Tudo dito com calma e inteligência. Eu assistia, quando dava, assistia de fora da sala. Ele deixava, fazendo que não notava; ou não notava mesmo. O prsor pegava nos livros, abria, lia e no final o livro continuava parecendo novo. Não arregaçava, não deixava marcas. Mão delicada. Eu era diferente. Claro, não ficava parado só segurando livros. Bem que eu queria, é o que mais gostaria, mas, tinha que carregar coisas, correr dum lado pra outro o dia todo, aí não tinha como. O prsor, quando passava, tinha um perfume, perfume de cheiro de nada, de limpo. Parecia cheiro de papel novo. Dava vontade de ser. Falava suave, astuto “Sei que o estilo das narradoras claricianas pode ser difícil pra vocês…”. Eu espiando as aulas. Tinha vezes que, perdendo o conteúdo, eu só admirava.
Parece que sinto que uma hora ele virá com caneta vermelha pra ficar machucando este livro. Selecionando parágrafos, corrigindo orações, anulando muitas partes do texto com riscadas repetidas, deixando borrões grossos parecendo feridas. Um cirurgião psicológico, e eu não poderei fazer nada. Não estudei como ele. Estudei só o que me interessou, e sozinho, sem ensino superior. Começo a admitir que só escrevo pra acumular papel na gaveta, que leio só por gostar sem saber formar pesquisas, não tendo formação específica em letras, estou aqui sem direito, ocupando páginas que são dele por domínio. Foi através dele que tive mais contato com alguns estudos, livros que não conhecia. Mas a lousa cheia não ofereciam pra mim: era só pra eu apagar. Deixou isso bem evidente, depois.
Quando sentamos, tô falando ainda daquele dia que ele veio me dar conselhos. Quando sentamos pra conversar, desgrudamos, ar fresco! O alívio foi curto, nada mudou de verdade. Quem eu era, tudo em mim, ele olhava distante, com sorrisinho, tranqüilo. Sabia e mostrava que sabia que eu estava acreditando em coisas que eram bobagens. Mas era eu todo que eu tava me falando pra ele. O olhar parecia que ria e só eu não sabia a piada. Cometia algum erro ridículo que de dentro de mim não era possível perceber nem resolver. Errado era eu todo.
Aí era eu que ouvia os pensamentos dele. Os pensamentos dele embaralhavam os meus e eu devia estar falando alguma coisa completamente esquisita, sem entendimento possível. Pra ele, não importava. Importava a conversa telepática. “Você se atrapalha pra dizer o que quer me dizer. Tá confuso? Você que vê meus pensamentos, mas não me domina por isso: me teme por isso. Apavorado por suspeitar que te vejo como um cara confuso, desarticulado, imaturo, sacudindo opiniões precipitadas atrás da testa molhada de insegurança. Não quer que eu veja que você não sabe coisas. Estou completamente relaxado – isso te coage. Minha calma é superioridade. Não tento me fazer superior, você sabe: isso te assusta, você mesmo é quem se sente menor. Sorrio tranqüilo, autorizando que se acalme. Esse é meu golpe fatal. Minha posição é tal, cabe a mim decidir por você, pela sua fala, pelo seu fôlego. Pode engolir a saliva, eu deixo. Você treme, mas tanto finge que não treme que só vibra. Parece febre. Minha presença e a superioridade que você me atribui te provocam arrepios abusivos, exposição indesejada do mais íntimo de você.”
A disputa secreta terminou no meu massacre. Chegou muito perto, perto demais. Com uma paz que incriminava minha menor agressividade. Veio conversar, nem ideia de briga nenhuma. A mim é que falta filosofia, e, em situação de me explicar, esquenta a minha cara e penso merdas. Se ele olhava minha mão fechada, envergonhava minha força. Foi sutil a minha derrota. Talvez ele nem tenha percebido.
– Vai seguir meu conselho?, ele falou se levantando pra ir embora.
Eu só agradeci, agradeci bastante: por poder respirar. Ele tava no comando. Dei as rédeas na mão dele. Perdi. Aprendi que não podia sair falando de qualquer jeito. Tinha jeito pra se dizer as coisas. Jeito demais. Se usasse o jeito errado, podiam desautorizar tudo que tenho pra dizer. Tinha que ser sem raiva, diálogo. Me arrependia de ter agido como eu, e não como ele.
Ele podia ser ele, eu não; não era no calo dele que ninguém subia. Na hora, não entendi, só admirei. Entender tudo só depois acumula uma raiva sem domínio. Toda raiva que não usei porque seria errado. E toda raiva por ele ter me convencido de que era errado. Raiva, vontade de pegar “que que cê tá olhando, seu professor?”, meter as mãos no peito, derrubar ele em cima das carteiras amontoadas todas. Ver quebrar osso e não prestar socorro, apagar a luz, trancar a sala.
Só que já foi! Fico tagarelando de ser herói de mim mesmo quando nem fui! Já arreguei, já foi. Não falei quando tava presente, agora não tem como fazer nada. Irado, tremo as mãos, tô incapaz de continuar. Mãos imprestáveis pra ficar tecendo prosa. Deixo de lado, tentarei continuar esse exerciciozinho medíocre mais tarde, sem ficar querendo mudar o que não fiz. No pretérito, sujeito nenhum age.
E no presente, só fala…

 

* * *

 

Primeiro, era o anfitrião da literatura, gostando do meu interesse. Depois, queria só corrigir, ensinar. Satisfação educar alguém que ele achava que não sabia nada. Eleva a moral. Só não é legal ser tão difícil. “Não aprendeu ainda?! Ah, assim não tem condições, tem que se esforçar mais! Aprendi rápido, era só minha segunda faculdade mas corri atrás do que precisei pra aprender…”. Não falava isso, mas latejava nos silêncios dele. Boca meio aberta, indignada, parecia nojo, era desaprovação.
Eu escrevia exercícios, tudo baseado na ideia que ele dava. Perguntava e ele respondia que ainda não tinha lido, que ia começar a trabalhar naquilo naquela madrugada. Ué, se tá pronto, só corrigir!, eu pensava. Nem era a partir do meu que ele fazia, era sempre outro, fazia do zero. Ele lia o meu? Era sempre óbvio que começar do nada era melhor do que começar do que fiz. Não corrigia, inventava outro. Eu ia aprender como? Questionei uma vez, tímido:
– Não, desculpa!, ele respondeu: Falha minha. Trouxe uma lição complicada demais pra você. Vamos deixar análise literária para depois. Amanhã  te passo “oração subordinada”.
Antes, sempre ali, na franqueza. Depois, fui só reparando: cada vez mais distante, passava rapidinho só pra me deixar exercícios prontos, só pra digitar ou xerocar. Os assuntos que eu puxava sobre livros, ele me puxava era o tapete. Gostei tanto de um trecho que achei numa peça de teatro que pediu pra eu xerocar uma vez. Fez que eu não tinha compreendido bem, que a tradução não era das melhores. Melhor era o original em alemão. Tirou meu direito de usar o texto, de usar pra me pensar. Dei razão pra ele. Mas, anotei o trecho pra mim: “Somos estúpidos, e eles, sabidos: nos tapeiam sempre. Atrapalha que sejam iguais a nós. Tivessem cara de animal peçonhento: a gente tomava mais cuidado.”. Anotei escondido. Se no debate de literatura não me servia, serviria pra vida, uma hora. Anotei em letra corrida, assustada. Acho que roubei.
Escondido. Essa humilhação tava perdida na memória, agora fui tropeçar nela. Vergonhoso até de lembrar. Se é relato, tenho que apresentar tudo: eu mesmo era fraco demais. Objetivamente, era eu quem, quando dava uma escapadinha pra pegar café – aí é que está: dava uma escapadinha! Não era meu por direito, um gole de café? Pra ficar acordado pra conseguir trabalhar! Obrigação da empresa. Mas, vou ao ponto, nunca me negaram. Isso que é. Eu que me proibia, me negava o direito de tomar café: e quando passava pela janela da Vânia, pelo corredor, quando passava pra pegar café: eu me agachava. Me escondia. Por baixo da janela. Uma barata. Rastejando. Que cena ridícula. Pra ela não me ver passando, onde eu podia passar. Pra não me ver pegando um copo, que eu podia pegar. Roubando café, que era de graça e pra mim também. Mas, roubando. Lá onde não confiavam em mim, onde cem olhos imaginários me vigiavam de cada parede, eu fazia tudo com as mãos pro alto, provando inocência. Quando não era assim, abafava meus passos, prendia a respiração, rastejava. Se alguém me visse, naqueles gestos furtivos: culpado. Sem mais julgamento. Se teme, deve. Eu atestava contra mim. Até agora, relatando abusos, termino confessando culpas que condenaram que eram minhas. Não posso confiar no meu próprio depoimento.
Nem era disso. Tinha que falar da frase. Roubei igual. Anotei escondido. E o olhar do prsor. Fiquei a semana toda desviando o olhar. Ia ler nos meus olhos o entendimento torto que fiz da frase. Ia olhar fundo na minha cara, pegar de volta, “que você tá fazendo com isso aqui?”, fazer eu devolver pra estante de literatura alemã, pedir desculpa pra nome de autor morto. Escondia mal: a mentira era uma barata refugiada no meu rosto, que tivesse que esconder dele, manobras demais pra evitar e exposição ridicularizante. Depois achei incoerente, não tinha como ninguém saber. Fui e contei, numa conversa com a Janair, fui e contei a frase. Citei falando sobre a patroa. Contei feliz, tinha roubado uma frase inteligente pra saciar nossa necessidade de entendimento. Ouviu sem atenção excepcional. A necessidade era só minha, ela já entendia tudo, acho até que desgostou da citação. Falei igual ao prsor, será?, imitando, querendo parecer. E quem chegou pouco depois? Não sei quanto foi o pouco, não sou preciso. Mas, era ele, e dava pra ter flagrado, dava pra ser possível. Pra mim, foi assim, pra mim, dava, e lembro de ter sido assim. O relato vai ter os defeitos da memória e – fazer o quê? é o que tem.
Onde parei? Na vergonha, deve ser, sempre a vergonha. Fugi do olhar do prsor. Escondia algo, e escondendo mal, ficava cada vez mais provável ele descobrir. Não descobrindo a coisa, descobriria a omissão, descobriria que escondia algo dele. Nunca soube mentir ali, o prsor me abria igual um livro, era só querer. Eu não resistia. Fiel como se estivesse nu e agachado, preso a ele por coleira. Mesmo que solto, não iria pra longe dele. Em honestidade besta, várias vezes quase me entregava.
Até hoje devo pra ele aquela frase.

 

* * *

 

Não eram pra mim estas coisas, isto. Pra mim, tinha outras liçõezinhas. Fui só olhando, desconfiado. As lições que me dava: cada vez mais fáceis. Cada vez mais bobinhas. Regredi até o b, a, Ba.
         B com e, Bê, b com i, Bi.
         Bá, Bé, Bi,
         Bô – ba – gem!
A coisa me menosprezava tanto. Conseguia mesmo atrofiar minhas capacidades.
Daí pra depois, nunca mais criei exercício nenhum, só digitava. Pegava apostilas velhas, livros, digitava exercícios e textos, copiando, só. Fazia a matéria bruta que ele trabalhava. Era a ajuda dele pra mim: me mantinha naquele serviço o quanto podia, me ajudava a não errar me impedindo de fazer. Um gesto de cuidado. Preocupação que te mostra que cê não presta. Recebe ajuda porque não banca. Como se te deram oportunidade e você não soube aproveitar, decepcionou expectativas. Uma pena.
As letras todas, palavras e frases que me ajudavam a me perceber com profundidade, não eram pra mim. Fazer um livro, não era pra mim. Ficava com a impressão de que os livros que existiam falavam um pouco do que eu tinha pra dizer. Mas, eu só podia ler. Não podia escrever. Nem falar sobre. O que ia ter pra dizer? Sou o professor? Então, que direito de ocupar a atenção duma sala de aula? Da minha boca só entendiam recados, tarefas, desculpas. Que sentimento, dentro dum uniforme? Humilhante. Todo mundo me olhando. Não que eu fosse inconveniente, era pior. Alguém me pisa, joga fora e pronto. Isso é jeito, o jeito que me olharam? Que eu era naquela hora? Não era mais gente? No meio da situação, tentava falar e aquele menino! Fazia cara de tonto, repetia o que eu falava, fazia riso pra turma, braços pendurados, imitando macaco, me chamando de bicho! Pra mim, passou dos limites e precisei me impor. A cara fervilhando de indignação. Minha voz tremeu qualquer bronca, nem sei que grunhido ouviram – ninguém obedeceu.
O prsor Lauro. Me falava também umas coisas, tantas, que eu nem sabia por onde responder. Que vozão que ele soltava, depois, “Por favor”, proclamava raivoso, “Por favor, senhor”.
“Irresponsável”.
Quando tavam me pressionando pra fora, quando saí gritando, toda escola parou pra espiar. As crianças que não tavam me xingando, tavam só no “Bá, Bê, Bi, Bô Bão”. Quis conversar com professor. Tirar satisfação. Todos os olhos, que nunca me olharam, todos os olhos em mim. Me encaravam, as caras me mirando me escoltavam pra fora. De fora, fugindo pela rua: de todas as janelas, mil cabeças.
Eu sozinho. Eles eram montes.
Não foi por querer atrapalhar. Nem interromper, não. Pelo contrário. É que às vezes podia ouvir as lições desse professor, espiando de ângulos tortos as aulas, sentado do lado de fora. E fui me vendo nos livros, todos personagens era eu. Era eu o inseto repugnante, era minha a inocência pisada numa cidade toda feita contra mim, meus os olhos oblíquos dissimulados, eu a cachorra Baleia baleada, era eu caluniado e condenado sem ter feito mal algum. O prsor lia com deleite histórias que só dão pra me doer. Fui aprendendo com ele. Aprendendo que quem escreve encurrala os personagens, aperta até não ter mais o que tirar e só aí termina, manda editar, publicar e sai de férias, enquanto vendem. Aprendi que não sou igual aos que escrevem, tô mais perto dos fodidos que são escritos. Aprendi a me torturar com palavras.
– Professor!, uma aluna chamou numa aula, um dia. Então quer dizer que não tem saída?
– Quer dizer que estes autores já estavam percebendo que não adiantava o sujeito se refugiar na própria subjetividade. Eu anotava tudo que ele ensinava: A luta de classes acontece o tempo todo e em toda parte. A dominação também é enfiada dentro da cabeça de quem é oprimido. Então, estando a própria mente já corrompida, já tendo internalizado o mundo que prejudica a vida humana, se esconder dentro de si não é uma saída. Na luta contra as classes dominantes, são fadadas ao fracasso todas as tentativas individuais.
Como se alguém tivesse se interessado e perguntado, ele respondeu:
– Tem, tem uma saída, sim: a força coletiva da classe trabalhadora organizada.
Lindo quando ele falava. Mas, “organização” pra ele e pra mim são duas coisas muito diferentes. Reparei, quando me viu comendo um pacotinho de amendoim do trem, engolindo entre uma aula e outra:
– Tô vendo que tá se organizando pra estar aqui com a gente!
A parceria dele. Só nessa do “tamo junto”, quando ele nunca teve que almoçar amendoim, nem repartiu seu prato executivo. “Organização dos trabalhadores”: enjoei dessas palavras, já vêm com hálito do bife acebolado dele.
Vão me dizer que a ideia independe da pessoa, que não devo descartar a aula boa junto com o professor ruim. Mas, que se dane, agora, de birra, não quero mais.

 

* * *

 

Agora tenho esse supervisor interno, parece que foi contratado pra ficar professando dentro da minha cabeça. Corrigindo e reprovando tudo que escrevo. A coisa emperra, não tem fluidez. Fico horas raspando o papel com a caneta. Prisioneiro riscando túnel de fuga. Vai dar aonde? Só sei que vou cada vez mais fundo.
Os primeiros trechos disto aqui foram lidos no boteco do Faria. Isso que foi meu lançamento. Com os rascunhos abertos, largados na mesa. Voltei do banheiro e tinha uns homens olhando, lendo. Nunca tinha visto eles ali antes. Minhas folhas nas mãos deles. Iam estragar. Cuidei de longe, espiando.
Fiquei gargarejando um riso mau assistindo à cena. Fingiam que não era difícil ler tantas letras boiando bêbadas no papel. Não compreendiam, difícil manter o interesse. Mas, precisando provar competência, falavam de coisa já lida em sobriedade, incomodavam a memória de autores mortos.
– Parece… Eu li! Aquele… aquele livro daquele escritor… – não sabiam nada de porra nenhuma, mas precisavam falar coisas. Escritor medíocre ninguém lê sem falar coisas, sem sugerir, sem tentar arrumar. Quando já tá morto, todo mundo se arregaça pra entender por que caralhos que fez daquele jeito a merda toda do livro. Se ainda tá vivo, tentam matar de nervoso. Isso é de uma burrice safada, que desvia do texto mal entendido e escapa pra qualquer outro canto do assunto. Se eu soubesse, se tivesse a língua mais poderosa, capacitada pra discurso em voz alta, humilhava aqueles leigos; igual o prsor me humilharia.
– Eu li! Verdade! Li!
Como nem o parceiro ouvia a crítica soluçada dele, me aproximei, atencioso.
– Eu li! É o… Dotor. Dousto… Doustoiévisqui! Aquele livro, curtinho, dele!, fiz que não conseguia escutar, que a música tava muito alta. Ele escreveu num canto de folha minha:
Adoce-o
Gozei de rir! Tanto me esculachou aquele professorzinho porque eu escrevia como se fala e tava lá eu fazendo igual, me molhando de rir da besta alcoolizada.
– Eu li! Li, sim! Li!
Besta, tão besta quanto eu; bêbado, tão bêbado quanto eu. Mas era um prazer: feroz, de caçador, vontade de despejar uma gargalhada pesada na cara dele.
– Mas é que eu li! O que tá pensando de mim? Li, sim!
E quem tava duvidando? Ninguém tava! Ninguém agüentava, também. Nunca calou a boca.
Não é desse cara que tenho que falar. Nem tenho que justificar tudo que entornei antes dele chegar. A ressaca daquilo é que me mostrou a cara do monstro. Olhei pra ele e o vi como o prsor o veria. Tive nojo, quis não ser igual. Por isso fiquei com lembranças rabugentas dele, caçando críticas.
O prsor. Influência arrogante, me fazia amargo. Pensava mal das pessoas, cruel, sempre competindo inteligências. Me estragou. O cara tava feliz, lá, só isso! Feliz gostando de livros! Sou um fungo, em silêncio mofando pelas beiradas a festa de alegria das pessoas.
O cara partiu sentido, sumindo pela porta do bar, virando pra me atirar olhares. Fosse na escola, tivesse as janelas: as mil cabeças uniformizadas o encarariam.

 

4.

 

– Tio, você nem existe.
Ia responder o quê? Tava certo o que a menininha falou. Nem sempre a gente quer ficar ouvindo sinceridades, mas, que eu podia fazer?, se tinha que ficar vigiando o portão!
Parado lá. Coisa inútil. Parado, sem banco, porque precisava ter prontidão. Tinha que estar em pé, solícito, caso chegasse alguém qualquer hora. Tinha que estar lá. Equilibrando cansaço. Passando e apodrecendo os milênios do mundo e eu parado, em pé, mãos atrás do corpo, tipo segurança. Morrer em pé. O peso puxando minha carne por costelas afiadíssimas. Minha caveira em pé e uniformizada, e aos meus pés a sujeira dos restos de mim, esquartejado pelo meu esqueleto.
Foi proposta do prsor. Achou que era melhor me poupar nos primeiros meses. Que eu não dava conta do trato com as pessoas e do estudo dos livros. A caridade dele era me diminuir, pra ninguém notar tanto, pro período de experiência acabar e eu ir ficando no emprego. Depois, eu que estraguei a invisibilidade, chamei atenção. Mas, machucava essa caridade envenenada dele. Me diminuía a peso de escorar porta.
Coisa assim se compra em qualquer lugar. Vê se ficaram sem quem cuidasse de porta, telefone, criança, lição. Eu mesmo fui ver, fui algumas vezes. Curiosidade escrota, vontade de sofrer. Fico pesquisando circunstância pra me torturar os sentimentos: fui olhar o portão da escola pra ver se tinham contratado alguém. Tipo ciumento, espiando. Olha aquela ali que entrou!, eu ficava, pra mim mesmo. É ela, deve ser ela! Ou é professora nova? Não, olha esse! Com pasta: currículo, com certeza. Sai daí, seu cara! Esse portão é meu! Meu serviço! Eu que arrumei o problema da fechadura! Mandam a pessoa embora mas não devolvem tudo que fez. Fica lá, tudo de benefício pra empresa. Olha! Dando até bom dia pras pessoas, o safado. Vai nessa, trouxão, logo logo te derrubam também. Ó, como age, a ansiedade. Imaturo: primeiro emprego? É, não parece muito apto. Daqui a pouco dispensam, não vai efetivar também não. Quem mandou entrar, a escola foi te chamar na sua casa?, não foi. Cê veio porque quis. Então, não adianta ficar doído depois, aqui neste esconderijo só caibo eu, sem lugar pra mais um.
Era mais ou menos isso, e não sei quanto mais coisas fiquei lá rosnando comigo mesmo. Pensei muita coisa, foi uma semana inteira voltando lá. Descobri o novo Tio, descobri de que lado que ia pra chegar na escola. Tinha que estar às seis pra começar o expediente. Quinze pras seis eu já esperava num boteco de esquina, confidenciando pro meu pingado como seria minha vingança.
Seis dias nisso. Ele vinha subindo a rua, eu vinha como se viesse no mesmo sentido. Me atrasava pra ele passar na minha frente. Caçava os calcanhares dele. Calculando a hora certa de pisar nele sem querer, derrubar o cara. Na segunda, me desajeitei. A partir de terça fui aproveitando pra criar a estratégia. Depois de quarta eu só pensava “de hoje não passa! vai estragar o uniforme todo na calçada!”. E nada deu conseguir dar a rasteira no meu rival. Na sexta, sentia que uns caras no boteco viraram plateia e riam de mim. E o próprio Tio novo já tava me conhecendo e desejou até bom dia. No sábado achei que os caras do boteco já me receberam com sorriso malicioso. O Tio me procurou pra dar bom dia. Me viu e eu virei a cara. E essa foi toda a minha vingança.

 

* * *

 

Ter orgulho é ficar vulnerável. Enquanto ainda tinha meu serviço lá: minha sensibilidade cresceu, meu espaço diminuiu: no portão da escola meu orgulho não passava e esfolava todo pra conseguir entrar, cada dia. Por que foi que me mostrou livros daqueles? Estimulavam o pensamento. E pensar só me ardia nas feridas.
As crianças até que tinham educação. Não educação comigo, educação só. Aquele jeito que a Vânia ensinava: “Fala ‘por favor’, Nathalie. Isso, muito bem!” e nenhuma olhava meus olhos! Era educada, não educada comigo, era pra ela saber ser educada. Não porque eu seja gente, porque mereça. Ela que aprendia os jeitos certos de ser. Eu nem era.
Mas também: reclamo coisas óbvias. Iam olhar? Meus olhos, onde estavam? Rolando pelo chão. Olhar murcho, de bicho envergonhado, arrastando poeiras, se escondendo pelos cantos, medroso. Quem ali ia botar a cara na toca em que me escondo e me dar um olhar sensível? Iam nada. A vida nos fez bichos diferentes. O erro da natureza, o que confunde, é que ainda ficamos com aparência de sermos da mesma espécie.
Só Janair ainda me olhava nos olhos, tratava como pessoa.
Janair era forte. Mulher megra e favelada, sim. Não abaixava a cabeça. Resistente. Igual às mulheres quilombolas que ela contava em histórias pra mim: olhava com olhar rebelde, obedecendo dos braços pra fora, só calculando a hora de incendiar a Casa Grande. Vânia não pisava nela. Não se desbancava, mas tinha medo. Medo escondido, mas medo. Cheia de dedos com a Janair, que era pra não perder nenhum.
– E eu só falei “Tira esse dedo da minha cara, senão eu vou quebrar ele”. Falei! Hoje ela é pianinho comigo.
Ela me contava. Se eu soubesse contar igual ela! Não escreveria esta história mole, se desistindo nos parágrafos. Ela contava e eu inflamava. Ouvindo, virava guerreiro com ela. Se não era história de quilombo, era caso que sofreu naquela escola. Já serviu ali no serviço dela e no meu, ao mesmo tempo, com salário dum serviço só. E eu sofrendo de cuidar do portão. Calculei a trabalheira que era tudo mais a limpeza toda. Fraquejei de imaginar o que ela resistiu fazendo.

 

* * *

 

Janair sabia lidar. Era explorada, mas sabia constranger. O prsor ficava desconcertado. Nem simpatia nem caridade tinham efeito com ela.
– Precisa limpar isso aqui hoje, se deixar pra amanhã vira uma meleca que…, falou assim, pro vento, mas na direção dela. Quem precisava limpar? O sujeito indeterminado de novo…
– Não entendi, seu Lauro. Quer que te lembre de limpar, é isso?
O prsor ficava ardido! Não podia dar ordens dessas, ainda mais de sujeiras que a aula dele inventou de criar: aula de literatura, quis dar tinta na mão de alunas e alunos, cuide do resultado. O rancor queimava, comia ele por dentro. A vingança ele gastava em quem fosse trouxa:
– Tio, aquela apostila de ontem. Reparou o que você fez?, veio intimando, mas não era que estivesse errada, pelo contrário: Pelo contrário, mas, não adianta acertar na sorte, tem que compreender. Que tipo de abordagem didática usou em relação ao aluno? Percebe? O que fez de diferente?, e mais e mais perguntas, todas no mesmo tom: Não sei dizer tecnicamente, você que fez, você que tem que saber. É daquele jeito mesmo! A próxima tem que manter a mesma relação. Entende?
Entender, não sei se entendia, mas, ia fazer, sim senhor.
Ainda insaciado na vingança:
– Como você pretende fazer, então?, e recomeçava o interrogatório.
Tudo no argumento da ajuda. Se me ofendia de incapaz, era que tava me ensinando. Mais tarde, quando me tirou aquela função, era que tava me poupando. Eu não sabia dar um basta, virar pra ele e dar um “não”. Sonho várias vezes que encontro com ele e não consigo não cumprimentar. Sempre igual, ele vem me cumprimentar, meter a mão na minha, simpático. Vai embora achando que tá toda boa nossa relação, que não acho ele um escroto, que não é um escroto. Sinto medo. Sinto que, numa hora dessa, vou deixar, vou cumprimentar, sem xingar, sem dizer tudo, nem virar a cara, nem fazer nada. Nem ser grosseiro, sincero. Tudo que resmungo dele, sinto que posso acovardar. Correr o risco de acumular mais uma situação à essa bagunça toda de memórias incômodas.

 

* * *

 

Assistia várias aulas dele. De canto, de fora, eu assistia. Contexto histórico dos livros. Eu só nos rodapés das xerox, anotando. Era Medieval, quem era plebeu não deixava de ser. Não dava pra subir, crescer, igual se fala hoje. Filho de sapateiro, morre sapateiro. Professor passava rápido, pulando duma frase pra outra, igual um goleiro no jeito das mãos e braços, todo homem, todo em forma. Porque podia, porque entendia. E falava sobre pobre, cheio de entendimento. Sem vergonha! Se eu dissesse, se todo mundo fosse entender! Que todo mundo visse a imagem que enxergo dele: derreteria de tanta exposição. Mas, nunca arrisco uma denúncia efetiva. Me esforço pra calar, viraria minha boca do avesso pra esconder minha cara covarde. Nisso a aula prosseguia, eu sentado lá fora e o prsor já tava na França. Fala conhecendo como é o lugar, a temperatura que tem. Pra mim, só palavra. França. Revolução burguesa. Possibilidade de ação individual. A pessoa decidir a própria vida. Só que a pessoa não podia ser pobre, a burguesia precisava de gente pobre pra servir a bebida. Massacraram um monte de trabalhadores num ano lá. Professor denunciando com a lousa. Eu anotando nas beiras das folhas e ele já de volta no Brasil. Golpe militar. Tortura física e psicológica. Quem se juntava pra pensar o país sem capitalismo, levava porrada, cortavam em pedaços e faziam sumir. Pra parentes ficarem na loucura de não encontrar nunca mais a pessoa. Agora é democracia, mas não mudou. Brasil muda pra ficar o mesmo, ele falava. Quem mandava ainda tá no poder. Que ditadura acabou sem ser derrotada, só acabou porque cumpriu seus objetivos. Não entendo bem esta parte.
– E tem gente na rua com cartaz pedindo a volta da ditadura!
As crianças: algumas entendendo e arregalando os olhos de medo de tudo piorar mais ainda outra vez. Lá fora, não senti tanto.
– É, Tio, a situação tá delicada, ele me confidenciou, entre aulas. Daqui a pouco qualquer coisinha mais histórica na aula e: doutrinação ideológica, um semestre preso. Censura! É a ditadura, Tio, a ditadura que tá voltando.
A história daquele dia me doeu menos que as de literatura. Eu tava lá fora, só ouvindo, nunca tendo visto mundo diferente. Voltando? Voltando pra onde, pra quem? Sem medo de ver ditadura voltar, sem entender diferença. Nem perguntei. Discuti dúvidas com meus papéis. Só observando, de fora. Se eu fizesse verem o prsor como eu o vejo! Em toda linha do tempo que riscou na lousa, eu tava sempre no mesmo lugar, sempre junto com quem tá por baixo nessa história. Se eu falasse e conseguisse explicar! Quem ia ser colocado pra fora, então? Mas, só delírios que eu anotava. Sem dizer, escrevi, estraguei folhas, afundei ponta de caneta. Fúria toda guardada só pra mim. A aula acontecia, eu ouvia, não falava.
Só rabiscos grossos e violentos nas margens de folhas de estudos.

 

* * *

 

Pelo aprendizado: fui entendendo. Quando já tava só no serviço do portão. Vi uma aluna ser mandada de volta pra casa. Tive que não deixar ela entrar. Mandada embora porque tava de saia. Não é escola?, não era melhor ela ficar lá aprendendo coisas? Pra quê se vai à escola? Pelo aprendizado: aprendizado de quê? Olhei a cara que ela fez quando desistiu de insistir e foi pra casa. Tinha aprendido. Ensinaram que ela não podia tudo, ensinaram que o motivo da restrição era ela ser mulher. Menina, mas mulher. A escola acredita e ensina que mulher não pode coisas. Ela aprendeu rápido, sem aula. A instituição, usando o próprio prédio, ensina quem é que manda e decide. Esse o aprendizado.
Alguma coisa fui aprendendo também…

 

* * *

 

Esqueci de contar tudo que a outra menininha, aluna pequena, falou:
– Tio, você nem existe.
A gente tava brincando, eu acho. Sabe quando criança fantasia, dá personagem uma pra outra: parecia isso, só que pra mim não tinha fantasia.
– Você só usa uniforme. Mora dentro da escola, nunca sai. E só existe quando eu preciso. Nas férias você some. Nem come nem dorme.
Perguntei, então, se nada eu era nem nada fazia, se também não era verdade que era impossível eu ser demitido.
– Não. Você só desaparece um pouco, depois volta. Nunca fica sem você aqui. Volta sempre. Às vezes em outra cara, outro tamanho. Sempre aí, sempre o Tio. Você é o que vem quando falo “Tio!”, e sempre vem alguém. Nem vejo sua cara. Só o desenho de em volta. Olha, vou te desenhar: só tem os contornos, não pode preencher!
O pai demorava e ela seguia dizendo. Também já me falou que:
– Ó meu caderno? Conheço ler e escrever. Você sabe? E, pra quê? Precisa, pra ficar aqui no portão? Não tem nada pra ler aqui. Nem escrever você não tem, né? Isso é o quê, um diário seu? Deix’eu ver? Ai, chato… Esconde, tá bom?, não mostra pra ninguém. Você só escreve coisas feias.

 

* * *

 

O barulho urgente do sinal levava embora a menininha junto com a criançada toda. Silêncio de depois duma guerra. Só a Janair aparecia, sem barulho, chegava pra bater papo comigo. Pisava delicada entre embalagens, líquidos, coisas esquecidas e sujeiras mais nojentas que crianças faziam abusando do pátio.
A limpeza era toda bem pesada lá. Cansava muito. O dia da semana que era dava pra saber pela cara da Janair. Segunda era normal: no sábado, já tava desgastada, uma carinha, parecia que tava dopada.
Apesar de tudo, nunca se escorou pelos cantos, igual eu fazia. Sempre pelas paredes, eu, escorrendo igual um caramujo. Assim, de lesma, igual minha escrita. Arrastada, atolada. Uma melação. Inutilizando papel e mais papel. Em poucos meses tava metamorfoseado nisso. Janair, em mais de cinco anos que tava lá, era gente ainda. Era e é. E vai continuar sendo, se não for derrotada. Ela é forte mas o serviço é ruim. O que mandassem, ela agüentava o peso. O salário pouco é que estrangula. Quando as dívidas vêm, chantageando, ela precisa fazer hora extra, gastar mais resistência da pele negra no chão de clientes brancos da escola.
Gastam ela muito. Janair foi uma irmã ali: só ela me olhou me vendo. Quando nem eu me garanto, se não conto nem comigo, saberia contar com a Janair. Ela é forte. Uma baixinha, mas tão enorme! Vai ser gente sempre. Até se cair de cansaço.
No dia que desabar uma pessoa daquela, vai assustar o giro do mundo. E até a humanidade vai ter vergonha, pelo menos uma vez.

 

5.

 

Quer o que aconteceu? Nem sei quanto já contei sobre a aula que fui expulso. Mil histórias já falei, na principal criei suspense… Não que esteja te enrolando, é menos voluntário. Muitos episódios, mas, tudo a mesma coisa. Cada hora de serviço tem a mesma função, não precisa viver todas pra entender, nada muda, a primeira já denuncia a última. Mas, o acúmulo! Não conto nada se não conto tudo. E, se não te uso de testemunha, fica tudo pra mim: minha memória tava entulhada demais. Não me demoro muito mais, porque autor desconhecido tá sempre em teste, em experiência: e se me desaprova, continuo com essas denúncias desordenadas gravadas só em mim. Escrito em mim isto tudo já tá, escrevo em papel que é pra mais gente poder saber.
– Não pode escrever do jeito que você fala.
Corrigia assim, o prsor. Nisso de avaliar o que é e o que não é, o que vale e o que não vale. Com isso que eu tô, podia esperar permissão? Se já não recebi aprovação e continuo precisando dizer! Eu precisando escrever e tendo medo das letras. Enquanto ele, só lá, sentado e tranqüilo, de frente pra sala todinha cheia de aluna e aluno. Toda a turma medrosa tremendo as canetas, pra ver se cai no papel uma história vibrante. Quando acham que saiu, quando olham o papel e acham que gostaram, levam pro prsor Lauro desaprovar ou não. Se ele riscava muito, já viu, era pra começar tudo de novo.
Cê acha que já me atrapalhei e tô contando outras histórias. Não desviei do assunto, que o assunto é esse: tem gente que decide o que é literatura e o que não é. Gente que nem ele, que pensa que nem ele, quem decide. Fazia assim com aluna e aluno, eu via. Decidia quem tinha direito de usar palavra.
Apertava os olhos nas folhas de caderno ou fichário. Dependia da cara que ele fizesse pra coisa ser só rabisco ou virar manuscrito, ter valor. Dos colegas, só tinha como conhecer o talento se o prsor gostava. Senão, ninguém ouvia nem lia. Até podiam compartilhar entre si, no intervalo, fora da aula. Mas, e a insegurança de fazer, e o medo de ser um lixo? A ideia do prsor era forte! Decidia. Talento de doutor acadêmico!
Nas últimas semanas minhas lá, ele falava menos comigo. Decepcionei? Ele vinha cuidando de umas olheiras. Davam cara de inteligência e esforço. Toquei no assunto:
– Cansado, prsor?
– Sem dormir direito. e ele suspirou um lamento orgulhoso: Ai, não é fácil Tio, esse mestrado!
Não sei pra quê serve mestrado. Só sei que serve pra poder depois virar doutor, e doutor serve pra tentar dar aula em faculdade, e dar aula em faculdade serve pra ganhar pra mais de quatro mil por mês!
– Nossa, professor, que interessante! E, o que tem que fazer?
Dependia. A pesquisa dele, disse, era traduzir um livro, que ele sublinhou algumas vezes que não tem ainda tradução pro português – o que tinha eram traduções ruins, adaptações, ele falava, desmerecendo. Livro dum escritor alemão.
Tradução: nunca parava pra pensar. Comecei a gostar de ler e fui lendo. Até sabia que a pessoa que escreve é, muitas vezes, de outro país, e que fala ou falava outra língua. Mas, nunca olhei isso, nunca fui ver quem era a pessoa que traduziu. Ia lendo sem a dúvida de como tava conseguindo entender as histórias, por exemplo, dum escritor russo… Nunca pensava.
“Minha pesquisa é traduzir”… O prsor traduzindo. Falou que o tal do alemão era um escritor que trabalhava em subemprego. Falou como sendo algo grave. E é mesmo, mas, ele não me olhava ali vendo tudo natural? Pra mim não era grave? Não me entendia, não se via no meu lugar, no meu uniforme. Não. Tanto que depois aconteceu o que aconteceu. Do jeito que aconteceu. Porque ele podia. Porque, pra ele, aconteceu o quê? Nada grave. Como ele traduz o acontecimento? Tradução é escolher palavras pra substituir: que palavras ia trocar, por quais? Interpretação. Um dia disseram que não sabiam que era assim que eu interpretei a coisa toda. Depende de interpretação? Pergunta pro patrão se ele interpreta que prejudicou a vida da pessoa empregada. Não acha. Como prsor traduz quem eu sou, como fala? Tio. Só a função. Nem: só o apelido da função – dizer o nome certo ia denunciar as demandas extras que me exigiam. Tio. Agora que tem outro, ele conversa como se fosse comigo? Percebe a diferença? Sabe que aquele Tio não é este Tio? Ou nem entra na interpretação dele, isso.
Só na canetada vermelha, cortando pedaço de frase e dizendo que “não” pros textos dos jovens. Tinha literatura que era correta: como era, não dizia. Tinha que ir errando, até quando ele não rabiscasse mais o texto todo de vermelho. O prsor Lauro. Cara felina com a barba. Sem olhos atrás do mistério do reflexo nos óculos. Atrás de barba e óculos ficava sonhando dar aula em faculdade. Mesona grande, livros pesados. Parado, um leão deitado, vigiando sem esforço uma sala toda cheia de pessoas alunas encurraladas. Uma tranqüilidade indiferente, pesada, toda montada no poder. Sonhava. Já se dando o título de doutor, decidia que texto de que pessoa ele deixava virar conto, literatura. Um tradutor nato. Não é assim? Um riquinho viaja, vê tudo lá fora, decide o que vai contar da viagem, o que deixa a gente saber. Só o que achar relevante. O que deixar, traduz do jeito dele mesmo e a gente que se agrade com isso. O que não deixar, o que não viu, ou que esqueceu, não concedeu importância, a gente nem suspeita. Nem existe, parece. A gente que não sabe, sou analfabeto das outras línguas!, a gente que não sabe fica na dependência. Se em algum lugar distante tem outra pessoa escrevendo trauma de patroa e patrão, trauma de escola, eu sei? tenho como saber? Só se ele me contar, me deixar saber. Querem que eu só dependa. Depender de ser ouvinte do turismo deles de viagens que nunca serão minhas!
Eu aqui me contando. E na viagem dele pra Alemanha, vai traduzir como o Brasil? Tinha o quê em São Paulo? Quando contar, as carteiras se arrumavam sozinhas na escola em que trabalhou, porta abria e fechava automática, nada nunca sujava, tudo contado sem entrar no assunto de quem é que arruma, quem é que limpa. Muito bonita a tradução dele. Tão bonita que eu nem existo.

 

* * *

 

Quer o que aconteceu? A aula da minha expulsão foi outra, depois. Turno da tarde. Atrasei na volta do horário do almoço. O relógio parecia um bilhete da Vânia “tá atrasado, desastrado!”. Pra Vânia não ouvir o horário que cheguei, subi as escadas cuidadoso. Mas demais! Colocava os pés nos degraus igual o professor arruma estantes da biblioteca, escolhendo muito. Chamo mais atenção fingindo de gente, pagando de bípede, articulado, decente. Mais atenção que se fosse rastejando no chão – meu lugar.
No meio da escada, escutei. Prosa esperta do prsor. Cheguei tarde pra espiar a aula? Mais perto: num sei quê dum escritor alemão de personagem animal. Mais pertinho, só mais um pouco, pra ouvir mais. A ratoeira parecia tão feita pra mim: botei direto o focinho.
A história. Um pouco eu já sabia porque copiei coisas pra ele. Xeroquei partes do livro, fazendo gentileza. Anotei uma “(…) não fosse a dívida que me prende, eu me demitiria de maneira brusca a ponto de fazer que o chefe caísse da alta banqueta de onde me contempla”. O que lembro do que ele contou na aula: um cara tinha que ir trabalhar, acordou atrasado, não conseguia levantar, tinha virado inseto. Quando falou que ele acordava todo dia às quatro da manhã! Só quem vive que sabe o que é a tristeza de sair na madrugada fria, socar café pra drogar os olhos, pra deixar abertos no ar fresco da rua. Me emocionei. Queria esse livro, falar que não entendo disso tudo, mas que entendo. Das madrugadas, de não se achar gente… A turma toda, sem ver a aula, só me olhando.
– Agora, não, Tio, só concluir aqui… Mas, o quê?… Não falei pra esperar?… Não, hoje não tem olhadinha, não, você pode, por favor, se retirar?… Tio, o senhor está me atrapalhando, então: por favor?… Que está fazendo? Por favor!
Quase saí mesmo. Se não tivesse doído tanto, nem consegui.
– Precisa falar desse jeito? encarei o prsor. Aí já era: turma toda se movimentando, “Se não sair agora…” e todo o resto.
Precisa explicar o quê mais? Chega: abandonei o expediente, sim. Daquela humilhação, com que cara ia continuar? Assim terminou a história: abandonei aquele dia. Pontuaram bem isso na reunião de não me efetivar. Se errei, justifica, né? Justifica tudo!
E como não estar errado, eu, que só de dar a cara já tenho minha sensibilidade literária desaprovada? Resmunguei e agora anotei todo este trambolho de memórias pra enfiar de volta pra dentro dos portões da escola, páginas inconvenientes que nem panfletos de propaganda, daqueles que se enfia em qualquer vão, qualquer abertura estreita das casas, dos estabelecimentos. Dessas folhas que só viram lixo. Mas sempre recolocadas, à espera de aprovação, confirmação de legitimidade, permissão pra entrar. Fiel ao próprio massacre, voltando a este meio pra me dispor à crítica dedetizante que vai me excluir de novo. Agora já tá escrita esta coisa, não tem nem como disfarçar as várias páginas, prontas pra serem enxotadas, pisadas, jogadas fora.
O que circula é livro e aula sobre personagens que te entretêm com emoções fortes. Só que não tô convidado, mesmo que o personagem seja eu. Pra mim sobram as carteiras desarrumadas do fim da aula. Te comove me ver escrito; eu: a mesma pessoa que cê despreza quando vê real.
Agora, isto aqui, sem correção nem tradução, não entra em escola. Vai todo desarranjado, porque é assim, diferente do jeito que cê gosta. Terminou constrangedora a experiência. A covardia de voltar pra onde eu tava devendo. Terminada a experiência, sem dúvida. Não efetivei. Nem é documento nem é literatura; nem capricho uma ficção, nem documento uma denúncia. Falatório inconformado, gago, nervoso, coisa entulhada e feia, tô na literatura igual se estivesse desfilando no trem um hematoma imenso: doloroso, mas não prova nada nem comove ninguém.
(Sou a crítica maldosa da minha própria narrativa amadora).
Terminou já: contrato, literatura, tudo. Sequela não ganha cláusula. Nem direito a literatura. Páginas de livros as pessoas letradas só usam pra se limpar do lixo de mundo que tenha aqui fora.

 

2015 – 2016
Enrique Andres de Oliveira Aue

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estranho próximo.

Posted in algo. on 14 14UTC janeiro 14UTC 2011 by enriqueandres

 

Sentou-se, sem pedir licenças, à minha mesa e de meus amigos, dos quais ele não conhecia nenhum. E desatou a dizer coisas, bobagens que foram logo ignoradas pelos demais em torno da mesa, mas para as quais mantive meus ouvidos abertos e receptivos, por mais que parecessem não fazer lá muito sentido. Mesmo com o sono já me pesando sobre as pálpebras, a curiosidade me mantinha uma expectativa de saber onde queria chegar com aquele discurso.

O homem era de um humor esquisito e inconstante, como o do vento: ora a brisa suave dançava com a fumaça dos cigarros, e parecíamos conversar amigavelmente; mas de repente o vento mudava de direção, corria forte roubando calor de minha pele mal abrigada, obrigando-me a cruzar os braços, tentando fazer de um o abrigo do outro, enquanto ele tornava-se irritadiço, erguendo uma postura agressiva, talvez por pensar que eu não lhe estava dando atenção. Parecia insinuar que eu lhe devesse alguma cumplicidade, cobrando que eu tivesse algum entendimento claro para com suas tortas palavras de raciocínio confuso e mal articulado.
Ele, certo momento, disse algo, que foi seguido pelo silêncio do som dos carros passando logo atrás de nós, das vozes das outras pessoas rindo bar a dentro. Olhou fundo nos meus olhos, sombrio. Eu olhei para seus olhos, de volta, confesso que com certo receio, talvez resquícios de medo. Parecia esperar alguma resposta, mas eu não sabia o que dizer, até porque não me parecia que alguma pergunta houvesse sido feita: fiquei calado. O meu calar-me pareceu ofendê-lo profundamente, até mais do que se eu tivesse pronunciado algum grave desaforo.
Nervoso, levantou-se me dando as costas, com um ar de raiva e mágoa. E foi embora rumo ao balcão, me deixando sobre a mesa o peso de uma culpa, como se eu houvesse chateado um amigo – que nem bem meu conhecido era,,, mas que também não era um total desconhecido, estava mais para um estranho próximo.

Os bêbados nos bares costumam depositar em nós pesos, como se não lhes pertencessem, e que também não são nossos, mas que eu carrego embora mesmo assim.

(enrique.aue.)

co(r)po vazio.

Posted in algo. on 27 27UTC abril 27UTC 2010 by enriqueandres

 

Isto, depois de muito virar, pousa de mau jeito sobre a mesa e inicia seu bêbado bailado, seu infinito girar. Isto está suado, frio e com forte cheiro de cachaça à boca. Tonto e vazio, em sua dança que mais parece cambaleio, ou cambaleio que parece dança.
Chega à borda e arrisca-se tentando equilibrar-se.
Escorrega – ou salta – e cai – ou voa. Isto transforma-se, de repente, numa constelação de gotas e estilhaços que espalham-se pelo chão.
Olho: isto sou eu.

(enrique.aue)

meus domingos de hoje.

Posted in algo. on 25 25UTC abril 25UTC 2010 by enriqueandres

 

Meus últimos quatro ou sete dias foram domingos.
E falo a sério, penso realmente que cada um destes quatro ou sete dias foi domingo. Vieram todos com a mesma depressão e o mesmo tédio e a mesma inutilidade – pois um domingo não serve para nada; para morrer, talvez; ou nem isso – de um legítimo domingo.

Meus últimos quatro ou sete dias foram domingos.
E foram tão domingos que nem posso afirmar com certeza quantos dias foram. Nem se foram tenho eu certeza.
Os últimos dias estavam tão absolutamente convictos de que eram domingos que até mesmo o clima acreditou e fez-se mortalmente cinza, escondendo sol, lua, e de quando em vez trazendo uma fria garoa.

Um calendário poderia, talvez, provar-me que os últimos quatro ou sete dias não foram domingos. Talvez um deles, não todos! Mas, por falta de tal prova, só me resta acreditar que, de fato, os últimos quatro ou sete dias foram domingos. Ou até que os últimos quatro ou sete dias foram quatro ou sete meses. E que tais meses foram séculos de domingos. E que os últimos quatro ou sete séculos não passaram de quatro ou sete minutos.

Levanto-me procurando um relógio: meia noite e quatro – ou sete.

Droga… tenho ainda um domingo inteiro para engolir.

(enrique.aue)

merda também.

Posted in algo. on 29 29UTC março 29UTC 2010 by enriqueandres

Estava sempre por aqui, pelas redondezas. Não tinha nada, não era nada. Sua única posse e única companheira era uma velha bengala – tão velha e tão jogada fora quanto ele – que sempre lhe ajudava em seus tortos e mancos passos. Sempre me causou uma sensação difícil de explicar, um misto de asco, de nojo e de uma estranha identificação.

Uma tarde estava eu caminhando por minha rua. Vi-o, de longe, à frente da casa de uma de minhas vizinhas. Batia com a bengala contra o portão, estava discutindo com o cachorro da casa. Era uma curiosa discussão, entre raivosos latidos e incompreensíveis resmungos.

Pensei que o velho poderia acabar machucando o cão – eis a coragem do homem: por medo de ter medo, enfrenta qualquer dragão, desde que tenha a certeza de que este não passa de um moinho -, então, quis intervir:

Senhor!, disse eu, Está precisando de alguma coisa?
Este cachorro fica… fica latindo pra mim!, respondeu-me. Latindo, latindo… Nem me conhece e fica latindo. Ele é merda!
Então, deixa ele pra lá, deixa ele em paz!, retruquei.
O velho pareceu pensar um pouco e depois disse: Mas ele… E você? V… você é quem? Você é um… você é grande coisa? Você é muito importante? Você é o que? Você é merda também!, e partiu, resmungando.

Continuei meu caminho, e ele, o dele. Nos poucos metros que faltavam até a minha casa, eu repetia, mentalmente e a cada passo, as últimas palavras do homem da bengala:

Eu sou merda também.

(enrique.aue)

sou casa sua.

Posted in algo. on 11 11UTC outubro 11UTC 2009 by enriqueandres

 

Já não lhe tenho portas, trancas ou campainha. Sou onde, sem licença, você entra, põe os pés no sofá, pula na cama, abre a geladeira. Tira os livros da prateleira, lê em voz alta um ou dois versos e os larga sobre a pia da cozinha. Liga a televisão e a deixa falando sozinha, como que tentando convencer o sofá a comprar um prático coçador de costas ou um liquidificador portátil. Atrasa meu despertador e desenha, com batom, coraçõezinhos nas paredes. Leva o rádio ao banheiro e passa horas no banho quente – que é um show de rock’n’roll. Experimenta todas as minhas roupas, as joga para fora das gavetas e, por fim, chama-me cafona!
Olha as flores nos vasos e sente pena delas, como sente pena de cães à coleira, peixes em aquários ou pessoas em pontos de ônibus.

Espalha meus rascunhos, põe abaixo os quadros, os retratos de antigos amores. Despenteia meus cabelos, balança minhas cortinas e salta pela janela – vento que és.

(enrique.aue)

a campainha.

Posted in algo. on 7 07UTC setembro 07UTC 2009 by enriqueandres

 

Toca a campainha.

Ao soar desta, o suor deste.
Mas este, ali, não esperava nenhum aquele, aquela ou aquilo. Não, não esperava nada. Decidiu, então, não atender.

Toca a campainha.

Estava muito ocupado observando seu céu, seu pálido e quadrado céu. Queria continuar, da confortável horizontal, assistindo o teto, porém, o chamado da campainha foi mais forte que o peso da sólida inércia.

Espiou, para ver se não tratava-se de algum vendedor, pedinte, alguém da igreja ou qualquer outro que tomaria seu tempo apenas para tentar convencê-lo a gastar dinheiro com algo inútil.
Era uma velha, de expressão cansada e olhar perdido. Uma velha sem hora. Reconheceu-a, era uma de suas vizinhas. Pensou em não atendê-la, mas, por fim, decidiu não faltar com a educação a uma idosa.

Olá!, disse, com o sorriso mais amarelo.    . . .    Pois não?, insistiu.
Ela voltou-se para ele, lentamente. Olhou-o, vestiu seu xale e foi-se embora.

Este permaneceu imóvel por algum tempo, sem entender. Arrastou sua face cinzenta de volta para dentro. Fechou a porta às suas costas, encostou-se a ela e deslizou até o chão.

Este, nada esperava ao atender a porta, e foi justamente o que encontrou.

(enrique.aue)