sou casa sua.

 

Já não lhe tenho portas, trancas ou campainha. Sou onde, sem licença, você entra, põe os pés no sofá, pula na cama, abre a geladeira. Tira os livros da prateleira, lê em voz alta um ou dois versos e os larga sobre a pia da cozinha. Liga a televisão e a deixa falando sozinha, como que tentando convencer o sofá a comprar um prático coçador de costas ou um liquidificador portátil. Atrasa meu despertador e desenha, com batom, coraçõezinhos nas paredes. Leva o rádio ao banheiro e passa horas no banho quente – que é um show de rock’n’roll. Experimenta todas as minhas roupas, as joga para fora das gavetas e, por fim, chama-me cafona!
Olha as flores nos vasos e sente pena delas, como sente pena de cães à coleira, peixes em aquários ou pessoas em pontos de ônibus.

Espalha meus rascunhos, põe abaixo os quadros, os retratos de antigos amores. Despenteia meus cabelos, balança minhas cortinas e salta pela janela – vento que és.

(enrique.aue)

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