Arquivo para janeiro, 2011

estranho próximo.

Posted in algo. on 14 14UTC janeiro 14UTC 2011 by enriqueandres

 

Sentou-se, sem pedir licenças, à minha mesa e de meus amigos, dos quais ele não conhecia nenhum. E desatou a dizer coisas, bobagens que foram logo ignoradas pelos demais em torno da mesa, mas para as quais mantive meus ouvidos abertos e receptivos, por mais que parecessem não fazer lá muito sentido. Mesmo com o sono já me pesando sobre as pálpebras, a curiosidade me mantinha uma expectativa de saber onde queria chegar com aquele discurso.

O homem era de um humor esquisito e inconstante, como o do vento: ora a brisa suave dançava com a fumaça dos cigarros, e parecíamos conversar amigavelmente; mas de repente o vento mudava de direção, corria forte roubando calor de minha pele mal abrigada, obrigando-me a cruzar os braços, tentando fazer de um o abrigo do outro, enquanto ele tornava-se irritadiço, erguendo uma postura agressiva, talvez por pensar que eu não lhe estava dando atenção. Parecia insinuar que eu lhe devesse alguma cumplicidade, cobrando que eu tivesse algum entendimento claro para com suas tortas palavras de raciocínio confuso e mal articulado.
Ele, certo momento, disse algo, que foi seguido pelo silêncio do som dos carros passando logo atrás de nós, das vozes das outras pessoas rindo bar a dentro. Olhou fundo nos meus olhos, sombrio. Eu olhei para seus olhos, de volta, confesso que com certo receio, talvez resquícios de medo. Parecia esperar alguma resposta, mas eu não sabia o que dizer, até porque não me parecia que alguma pergunta houvesse sido feita: fiquei calado. O meu calar-me pareceu ofendê-lo profundamente, até mais do que se eu tivesse pronunciado algum grave desaforo.
Nervoso, levantou-se me dando as costas, com um ar de raiva e mágoa. E foi embora rumo ao balcão, me deixando sobre a mesa o peso de uma culpa, como se eu houvesse chateado um amigo – que nem bem meu conhecido era,,, mas que também não era um total desconhecido, estava mais para um estranho próximo.

Os bêbados nos bares costumam depositar em nós pesos, como se não lhes pertencessem, e que também não são nossos, mas que eu carrego embora mesmo assim.

(enrique.aue.)

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