Archive for the algo. Category

estranho próximo.

Posted in algo. on 14 14UTC janeiro 14UTC 2011 by enriqueandres

 

Sentou-se, sem pedir licenças, à minha mesa e de meus amigos, dos quais ele não conhecia nenhum. E desatou a dizer coisas, bobagens que foram logo ignoradas pelos demais em torno da mesa, mas para as quais mantive meus ouvidos abertos e receptivos, por mais que parecessem não fazer lá muito sentido. Mesmo com o sono já me pesando sobre as pálpebras, a curiosidade me mantinha uma expectativa de saber onde queria chegar com aquele discurso.

O homem era de um humor esquisito e inconstante, como o do vento: ora a brisa suave dançava com a fumaça dos cigarros, e parecíamos conversar amigavelmente; mas de repente o vento mudava de direção, corria forte roubando calor de minha pele mal abrigada, obrigando-me a cruzar os braços, tentando fazer de um o abrigo do outro, enquanto ele tornava-se irritadiço, erguendo uma postura agressiva, talvez por pensar que eu não lhe estava dando atenção. Parecia insinuar que eu lhe devesse alguma cumplicidade, cobrando que eu tivesse algum entendimento claro para com suas tortas palavras de raciocínio confuso e mal articulado.
Ele, certo momento, disse algo, que foi seguido pelo silêncio do som dos carros passando logo atrás de nós, das vozes das outras pessoas rindo bar a dentro. Olhou fundo nos meus olhos, sombrio. Eu olhei para seus olhos, de volta, confesso que com certo receio, talvez resquícios de medo. Parecia esperar alguma resposta, mas eu não sabia o que dizer, até porque não me parecia que alguma pergunta houvesse sido feita: fiquei calado. O meu calar-me pareceu ofendê-lo profundamente, até mais do que se eu tivesse pronunciado algum grave desaforo.
Nervoso, levantou-se me dando as costas, com um ar de raiva e mágoa. E foi embora rumo ao balcão, me deixando sobre a mesa o peso de uma culpa, como se eu houvesse chateado um amigo – que nem bem meu conhecido era,,, mas que também não era um total desconhecido, estava mais para um estranho próximo.

Os bêbados nos bares costumam depositar em nós pesos, como se não lhes pertencessem, e que também não são nossos, mas que eu carrego embora mesmo assim.

(enrique.aue.)

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co(r)po vazio.

Posted in algo. on 27 27UTC abril 27UTC 2010 by enriqueandres

 

Isto, depois de muito virar, pousa de mau jeito sobre a mesa e inicia seu bêbado bailado, seu infinito girar. Isto está suado, frio e com forte cheiro de cachaça à boca. Tonto e vazio, em sua dança que mais parece cambaleio, ou cambaleio que parece dança.
Chega à borda e arrisca-se tentando equilibrar-se.
Escorrega – ou salta – e cai – ou voa. Isto transforma-se, de repente, numa constelação de gotas e estilhaços que espalham-se pelo chão.
Olho: isto sou eu.

(enrique.aue)

meus domingos de hoje.

Posted in algo. on 25 25UTC abril 25UTC 2010 by enriqueandres

 

Meus últimos quatro ou sete dias foram domingos.
E falo a sério, penso realmente que cada um destes quatro ou sete dias foi domingo. Vieram todos com a mesma depressão e o mesmo tédio e a mesma inutilidade – pois um domingo não serve para nada; para morrer, talvez; ou nem isso – de um legítimo domingo.

Meus últimos quatro ou sete dias foram domingos.
E foram tão domingos que nem posso afirmar com certeza quantos dias foram. Nem se foram tenho eu certeza.
Os últimos dias estavam tão absolutamente convictos de que eram domingos que até mesmo o clima acreditou e fez-se mortalmente cinza, escondendo sol, lua, e de quando em vez trazendo uma fria garoa.

Um calendário poderia, talvez, provar-me que os últimos quatro ou sete dias não foram domingos. Talvez um deles, não todos! Mas, por falta de tal prova, só me resta acreditar que, de fato, os últimos quatro ou sete dias foram domingos. Ou até que os últimos quatro ou sete dias foram quatro ou sete meses. E que tais meses foram séculos de domingos. E que os últimos quatro ou sete séculos não passaram de quatro ou sete minutos.

Levanto-me procurando um relógio: meia noite e quatro – ou sete.

Droga… tenho ainda um domingo inteiro para engolir.

(enrique.aue)

merda também.

Posted in algo. on 29 29UTC março 29UTC 2010 by enriqueandres

Estava sempre por aqui, pelas redondezas. Não tinha nada, não era nada. Sua única posse e única companheira era uma velha bengala – tão velha e tão jogada fora quanto ele – que sempre lhe ajudava em seus tortos e mancos passos. Sempre me causou uma sensação difícil de explicar, um misto de asco, de nojo e de uma estranha identificação.

Uma tarde estava eu caminhando por minha rua. Vi-o, de longe, à frente da casa de uma de minhas vizinhas. Batia com a bengala contra o portão, estava discutindo com o cachorro da casa. Era uma curiosa discussão, entre raivosos latidos e incompreensíveis resmungos.

Pensei que o velho poderia acabar machucando o cão – eis a coragem do homem: por medo de ter medo, enfrenta qualquer dragão, desde que tenha a certeza de que este não passa de um moinho -, então, quis intervir:

Senhor!, disse eu, Está precisando de alguma coisa?
Este cachorro fica… fica latindo pra mim!, respondeu-me. Latindo, latindo… Nem me conhece e fica latindo. Ele é merda!
Então, deixa ele pra lá, deixa ele em paz!, retruquei.
O velho pareceu pensar um pouco e depois disse: Mas ele… E você? V… você é quem? Você é um… você é grande coisa? Você é muito importante? Você é o que? Você é merda também!, e partiu, resmungando.

Continuei meu caminho, e ele, o dele. Nos poucos metros que faltavam até a minha casa, eu repetia, mentalmente e a cada passo, as últimas palavras do homem da bengala:

Eu sou merda também.

(enrique.aue)

sou casa sua.

Posted in algo. on 11 11UTC outubro 11UTC 2009 by enriqueandres

 

Já não lhe tenho portas, trancas ou campainha. Sou onde, sem licença, você entra, põe os pés no sofá, pula na cama, abre a geladeira. Tira os livros da prateleira, lê em voz alta um ou dois versos e os larga sobre a pia da cozinha. Liga a televisão e a deixa falando sozinha, como que tentando convencer o sofá a comprar um prático coçador de costas ou um liquidificador portátil. Atrasa meu despertador e desenha, com batom, coraçõezinhos nas paredes. Leva o rádio ao banheiro e passa horas no banho quente – que é um show de rock’n’roll. Experimenta todas as minhas roupas, as joga para fora das gavetas e, por fim, chama-me cafona!
Olha as flores nos vasos e sente pena delas, como sente pena de cães à coleira, peixes em aquários ou pessoas em pontos de ônibus.

Espalha meus rascunhos, põe abaixo os quadros, os retratos de antigos amores. Despenteia meus cabelos, balança minhas cortinas e salta pela janela – vento que és.

(enrique.aue)

a campainha.

Posted in algo. on 7 07UTC setembro 07UTC 2009 by enriqueandres

 

Toca a campainha.

Ao soar desta, o suor deste.
Mas este, ali, não esperava nenhum aquele, aquela ou aquilo. Não, não esperava nada. Decidiu, então, não atender.

Toca a campainha.

Estava muito ocupado observando seu céu, seu pálido e quadrado céu. Queria continuar, da confortável horizontal, assistindo o teto, porém, o chamado da campainha foi mais forte que o peso da sólida inércia.

Espiou, para ver se não tratava-se de algum vendedor, pedinte, alguém da igreja ou qualquer outro que tomaria seu tempo apenas para tentar convencê-lo a gastar dinheiro com algo inútil.
Era uma velha, de expressão cansada e olhar perdido. Uma velha sem hora. Reconheceu-a, era uma de suas vizinhas. Pensou em não atendê-la, mas, por fim, decidiu não faltar com a educação a uma idosa.

Olá!, disse, com o sorriso mais amarelo.    . . .    Pois não?, insistiu.
Ela voltou-se para ele, lentamente. Olhou-o, vestiu seu xale e foi-se embora.

Este permaneceu imóvel por algum tempo, sem entender. Arrastou sua face cinzenta de volta para dentro. Fechou a porta às suas costas, encostou-se a ela e deslizou até o chão.

Este, nada esperava ao atender a porta, e foi justamente o que encontrou.

(enrique.aue)

o dono da rua

Posted in algo. on 30 30UTC agosto 30UTC 2009 by enriqueandres

 

Respirei fundo e dei o primeiro passo, pois não há caminhada que se conclua se não houver um primeiro passo para romper a inércia. Andava com certa pressa por querer logo chegar em casa – pressa que, talvez, seja-me mais desgastante que o próprio caminho.
Após algumas subidas, sentia-me tão cansado que já não parecia que meus pés me estavam carregando, mas sim que eu sustentava a Terra toda sobre minhas pernas e tinha que fazê-la girar.

Finalmente uma rua plana! Pude, de certa forma, relaxar um pouco naquele momento. Olhei para o céu e vi como estava bela a lua. Sorri. Eu ainda andava olhando para cima quando ouvi algo. O som era inconfundível, voltei meu rosto para baixo e o vi.
Estávamos tão próximos que podia sentir-lhe a respiração quente e raivosa. Havia fúria em seus olhos, como se eu o insultasse profundamente aparecendo, sem convite, em seu território. Seu corpo inteiro parecia preparado para estraçalhar-me ao meu menor movimento em falso. Meu medo impediu-me de enfrentá-lo. Dei três passos para trás, o mais lentamente possível. Sabia que tudo estaria perdido se ele resolvesse iniciar ali uma luta comigo. Eu estava tão cansado que nem correr conseguiria.

Durante longos e tensos minutos tentei formas diferentes de abordagem: Tentei rosnar de volta para ele, não obtive muito êxito – pelo contrário, creio que só fez aumentar sua ira. Tentei, discretamente, passar pelo outro lado da rua. Pensei em suborná-lo, mas não havia nada em minha mochila que o pudesse interessar. Tentei, por fim, explicar minha situação e pedir licença, mas não demonstrou nenhum tipo de comoção por meu caso.

Por que eu deveria estar me rebaixando a ele? Isso era ridículo!

– Saia de minha frente agora mesmo, sua criatura inferior! Irracional! Você e toda a sua espécie são apenas meros servos. Nós não passamos por todos esses milhares de anos de evolução para, numa noite qualquer, um pequeno e desaforado quadrúpede contestar nossa soberania. Saia! Inventamos, construímos, criamos toda esta paisagem concreta a nossa volta, logo, temos muito mais direito de transitar por estas ruas que você! – disse.

Latiu. Uma única vez, alto, feroz e imponente.
Tomei outro caminho, bem mais longo.
Sim, ele era o dono da rua.

(enrique.aue)