o dono da rua

Posted in algo. on 30 30UTC agosto 30UTC 2009 by enriqueandres

 

Respirei fundo e dei o primeiro passo, pois não há caminhada que se conclua se não houver um primeiro passo para romper a inércia. Andava com certa pressa por querer logo chegar em casa – pressa que, talvez, seja-me mais desgastante que o próprio caminho.
Após algumas subidas, sentia-me tão cansado que já não parecia que meus pés me estavam carregando, mas sim que eu sustentava a Terra toda sobre minhas pernas e tinha que fazê-la girar.

Finalmente uma rua plana! Pude, de certa forma, relaxar um pouco naquele momento. Olhei para o céu e vi como estava bela a lua. Sorri. Eu ainda andava olhando para cima quando ouvi algo. O som era inconfundível, voltei meu rosto para baixo e o vi.
Estávamos tão próximos que podia sentir-lhe a respiração quente e raivosa. Havia fúria em seus olhos, como se eu o insultasse profundamente aparecendo, sem convite, em seu território. Seu corpo inteiro parecia preparado para estraçalhar-me ao meu menor movimento em falso. Meu medo impediu-me de enfrentá-lo. Dei três passos para trás, o mais lentamente possível. Sabia que tudo estaria perdido se ele resolvesse iniciar ali uma luta comigo. Eu estava tão cansado que nem correr conseguiria.

Durante longos e tensos minutos tentei formas diferentes de abordagem: Tentei rosnar de volta para ele, não obtive muito êxito – pelo contrário, creio que só fez aumentar sua ira. Tentei, discretamente, passar pelo outro lado da rua. Pensei em suborná-lo, mas não havia nada em minha mochila que o pudesse interessar. Tentei, por fim, explicar minha situação e pedir licença, mas não demonstrou nenhum tipo de comoção por meu caso.

Por que eu deveria estar me rebaixando a ele? Isso era ridículo!

– Saia de minha frente agora mesmo, sua criatura inferior! Irracional! Você e toda a sua espécie são apenas meros servos. Nós não passamos por todos esses milhares de anos de evolução para, numa noite qualquer, um pequeno e desaforado quadrúpede contestar nossa soberania. Saia! Inventamos, construímos, criamos toda esta paisagem concreta a nossa volta, logo, temos muito mais direito de transitar por estas ruas que você! – disse.

Latiu. Uma única vez, alto, feroz e imponente.
Tomei outro caminho, bem mais longo.
Sim, ele era o dono da rua.

(enrique.aue)

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e lá, ela.

Posted in algo. on 25 25UTC agosto 25UTC 2009 by enriqueandres

 

Olho-a e vejo-a.

Não vejo grossas e castanhas gotas de mel quando olho para seus olhos. Não confundo seu sorriso a uma lua minguante. Nenhuma seda corre por entre meus dedos quando acaricio sua pele. Não penso estar às nuvens quando, de olhos cerrados, nos abraçamos. Nem sinto derramar-se em meus ouvidos o simples e maravilhoso canto dos pássaros quando me fala.

Olho-a e vejo-a. Toco-a e sinto-a. Sinto o que ela é: ela.

Quando a amo não estou amando uma fantasia, um sonho, uma sensação, ou mesmo o próprio amor. Beijo não uma enganação ou qualquer outra coisa que só existe no meu pensamento, beijo sua boca, seus lábios, sua língua.

Está, para meus olhos, nua de tudo que não seja ela. Por isso olho-a e vejo-a. E é ela quem amo quando a amo.

(enrique.aue)